Uma
metáfora da condição humana, por Leonardo Boff
1 – Uma história que vem da África
Era uma vez um político,
também educador popular, chamado James Aggrey: Ele Era natural de Gana, pequeno
país da África Ocidental. Até agora, talvez, um ilustre desconhecido. Mas,
certa feita, contou uma história tão bonita que, com certeza, já circulou pelo
mundo, tornando seu autor e sua narração inesquecíveis.
Como muitas pessoas
provavelmente não tiveram a oportunidade de ler sua história, nem de conhecer
seu país, vamos inicialmente falar um pouco de Gana e relembrar aquela
história.
.Gana está situado no Golfo
da Guiné, entre a Costa do Marfim e o Togo. Sua longa história vem do século
IV. Alcançou o apogeu entre 700 e 1200 de nossa era. Naquela época havia tanto
ouro que até os cães de raça usavam coleiras e adornos com esse precioso metal.
No século XVI Gana foi feita
colônia pelos portugueses. E por causa do ouro abundante chamaram-na de Costa
do Ouro. Outros, como os traficantes de escravos, denominavam-na também de
Costa da Mina.
N o século XVIII, época do
chamado ciclo da Costa da Mina, vieram dessa região, especialmente para a
Bahia, cerca de 350 mil escravos. Com eles vieram e foram incorporados muitos
elementos de sua cultura. O uso medicinal das folhas (ewé) que curam somente quando acompanhadas de palavras mágicas e
de encantamento. E sua religião, o ioruba
ou o candomblé, que possui uma das teologias mais fascinantes do mundo. Faz
de cada pessoa humana uma espécie de Jesus Cristo, quer dizer, um virtual
incorporador dos orixás, divindades ligadas à natureza e às suas energias
vitais.
Os escravos eram negociados
em troca de fumo de terceira. Refugado por Lisboa, esse fumo era muito
apreciado na África por causa de seu perfume. Dizia-se até: "a Bahia tem
fumo e quer escravos; Costa da Mina tem escravos e quer fumo; portanto, façamos
um negócio que é bom para os dois lados". A maioria dos escravos das
plantações de cana-de-açúcar nos Estados Unidos vieram também da região de
Gana.
A pretexto de combater a
exportação de escravos para as Américas, a Inglaterra se apoderou desta colônia
portuguesa. De início, em 1874, ocupou a costa e, em seguida; em 1895, invadiu
todo o território. Gana perdeu assim a liberdade, tomando-se apenas mais uma
colônia inglesa.
A libertação começa na consciência
A população ganense sempre
alimentou forte consciência da ancestralidade de sua história e muito orgulho
da nobreza de suas tradições religiosas e culturais. Em conseqüência, foi
constante sua oposição a todo tipo de colonização. James Aggrey; considerado um
dos precursores do nacionalismo africano e do moderno pan-africanismo,
fortaleceu significativamente este sentimento.
Ele teve grande relevância
política como educador de seu povo. Para libertar o país – pensava ele à
semelhança de Paulo Freire – precisamos, antes de tudo, libertar a consciência
do povo. Ela vem sendo escravizada por idéias e valores antipopulares,
introjetados pelos colonizadores.
Com efeito, os
colonizadores, para ocultar a violência de sua conquista, impiedosamente
desmoralizavam os colonizados. Afirmavam, por exemplo, que os habitantes da
Costa do Ouro e de toda a África eram seres inferiores, incultos e bárbaros.
Por isso mesmo deviam ser colonizados. De outra forma, jamais seriam
civilizados e inseridos na dimensão do espírito universal.
Os ingleses reproduziam tais
difamações em livros. Difundiam-nas nas escolas. Pregavam-nas do alto dos
púlpitos das igrejas. E propalavam-nas em todos os atos oficiais.
O marte lamento era tanto
que muitos colonizados acabaram hospedando dentro de si os colonizadores com
seus preconceitos. Acreditaram que de fato nada valiam. Que eram realmente
bárbaros, suas línguas, rudes, suas tradições, ridículas, suas divindades,
falsas, sua história, sem heróis autênticos, todos efetivamente ignorantes e
bárbaros.
Pelo fato de serem
diferentes dos brancos, dos cristãos e dos europeus, foram tratados com
desigualdade, discriminados. A diferença de raça, de religião e de cultura não
foi vista pelos colonizadores como riqueza humana. Grande equívoco: a diferença
foi considerada como inferioridade!
Processo semelhante ocorreu
no século XVI com os indígenas da América e com os colonizados da Ásia. E
ocorre ainda hoje com os países que não foram inseridos no novo sistema mundial
de produção, de consumo e de mercado global, como a maioria das nações da
América Latina, da África e da Ásia. Elas são consideradas "sem interesse
para o capital", tidas, em termos globais, como "zeros
econômicos" e suas populações vistas como "massas humanas
descartáveis", "sobrantes" do processo de modernização. São
entregues à própria fome, à miséria e à margem da história feita pelos que
presumem serem os senhores do mundo. Estes mostram, por isso, uma
insensibilidade e uma desumanidade que dificilmente encontra paralelos na
história humana.
Infelizmente, a mesma
discriminação acontece com os pobres e miseráveis, com as mulheres, os
deficientes físicos e mentais, os homossexuais, os portadores do vírus HIV, os
hansenianos e todos aqueles que não se enquadram nos modelos preestabelecidos.
Todos são vítimas do preconceito e da exclusão por parte daqueles que se
pretendem os únicos portadores da humanidade, de cultura, de saúde, de saber e
de verdade religiosa.
– Dominadores, vossa
arrogância vos torna cruéis e sem piedade. Ela vos faz etnocêntricos*,
dogmáticos* e fundamentalistas* .Não percebeis que vos desumanizais a vós
mesmos? Reparai: onde chegais, fazeis vítimas de toda ordem por conta do
caráter discriminador, proselitista e excludente de vossas atitudes e de vosso
projeto cultural, religioso, político e econômico que impondes a todo mundo!
A libertação se efetiva na prática histórica
Toda colonização – seja a
antiga, pela invasão dos territórios, seja a moderna, pela integração forçada
no mercado mundial – significa sempre um ato de grandíssima violência. Implica
o bloqueio do desenvolvimento autônomo de um povo. Representa a submissão de
parcelas importantes da cultura, com sua memória, seus valores, suas
instituições, sua religião, à outra cultura invasora. Os colonizados de ontem e
de hoje são obrigados a assumir formas políticas, hábitos culturais, estilos de
comunicação, gêneros de música e modos de produção e de consumo dos
colonizadores. Atualmente se verifica uma poderosa "hamburguerização"
da cultura culinária e uma "rockiquização" dos estilos musicais. Os
que detêm o monopólio do ter, do poder e do saber, controlam os mercados e
decidem sobre o que se deve produzir, consumir e exportar. Numa palavra, os
colonizados são impedidos de fazer suas escolhas, de tomar as decisões que
constróem a sua própria história.
Tal processo é profundamente
humilhante para um povo. Produz sofrimentos dilaceradores. A médio e a longo
prazo não há razões, quaisquer que sejam, que consigam justificar e tomar
aceitável tal sofrimento. Aos poucos ele se torna simplesmente insuportável. Dá
origem a um antipoder. Os oprimidos começam a "extrojetar" o opressor
que forçadamente hospedam dentro de si. É o tempo maduro para o processo de
libertação. Primeiro, na mente. Depois, na organização, Por fim, na prática.
Libertação significa a ação
que liberta a liberdade cativa. É só pela libertação que os oprimidos resgatam
a auto-estima. Refazem a identidade negada. Reconquistam a pátria dominada. E
podem construir uma história autônoma, associada à história de outros povos
livres.
– Oprimidos, convencei-vos
desta verdade: a libertação começa na vossa consciência e no resgate da vossa
própria dignidade, feita mediante uma prática conseqüente. Confiai.]amais
estareis sós. Haverá sempre espíritos generosos de todas as raças, de todas as
classes e de todas as religiões que farão corpo convosco na vossa nobre causa
da liberdade. Haverá sempre aqueles que pensarão: cada sofrimento humano, em
qualquer parte do mundo, cada lágrima chorada em qualquer rosto, cada ferida
aberta em qualquer corpo é como se fosse uma ferida no meu próprio corpo, uma
lágrima dos meus próprios olhos e um sofrimento do meu próprio coração. E
abraçarão a causa dos oprimidos de todo o mundo. Serão vossos aliados leais.
James Aggrey incentivava em
seus compatriotas ganenses tais sentimentos de solidariedade essencial.
Infelizmente não pôde ver a libertação de seu povo. Morreu antes, em 1927. Mas
semeou sonhos.
A libertação veio com Kwame
N'Krumah, uma geração após. Este aprendeu a lição libertária de Aggrey: Apesar da
vigilância inglesa, conseguiu organizar em 1949 um partido de libertação,
chamado Partido da Convenção do Povo.
N'Krumah e seu partido
pressionaram de tal maneira a administração colonial inglesa, que o governo de
Londres se viu obrigado, em 1952, a fazê-lo primeiro-ministro. Em seu discurso
de posse surpreendeu a todos ao proclamar: "Sou socialista, sou marxista e
sou cristão".
Obteve a sua maior vitória
no dia 6 de março de 1957 quando presidiu a proclamação da independência da
Costa do Ouro. Agora o país voltou ao antigo nome: Gana. Foi a primeira colônia
africana a conquistar sua independência.
Gana tem hoje 238.537
quilômetros quadrados, com densa selva tropical ao sul, atravessada pelo
grandioso rio Volta de 1.600 quilômetros de comprimento. A represa Akossombo,
feita com o rio, forma um imenso lago de 8.482 quilômetros quadrados, numa
extensão de quatrocentos quilômetros. A capital é Accra, com ,cerca de 700 mil
habitantes numa população total de 16,4 milhões de pessoas. Estima-se que 2000
Gana terá 20 milhões de habitantes.
Se aplicarem os ideais de
James Aggrey, consolidarão sua identidade e autonomia. E avançarão pouco a
pouco no sentido de uma concidania participativa e solidária.
2 – Nós somos águias
Vamos, finalmente, contar a
história narrada por James Aggrey.
O contexto é o seguinte: em
meados de 1925, James havia participado de uma reunião de lideranças populares
na qual se discutiam os caminhos da libertação do domínio colonial inglês. As
opiniões se dividiam.
Alguns queriam o caminho
armado. Outros, o caminho da organização política do povo, caminho que
efetivamente triunfou sob a liderança de Kwame N'Krumah. Outros se conformavam
com a colonização à qual toda a África estava submetida. E havia também aqueles
que se deixavam seduzir pela retórica* dos ingleses. Eram favoráveis à presença
inglesa como forma de modernização e de inserção no grande mundo tido como
civilizado e moderno.
James Aggrey, como fino
educador, acompanhava atentamente cada intervenção. Num dado momento, porém, viu
que líderes importantes apoiavam a causa inglesa. Faziam letra morta de toda a
história passada e renunciavam aos sonhos de libertação. Ergueu então a mão e
pediu a palavra. Com grande calma, própria de um sábio, e com certa solenidade,
contou a seguinte história:
."Era uma vez um
camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em
sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto
com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia
fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este
homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo
jardim, disse o naturalista:
– Esse pássaro aí não é
galinha. É uma águia.
– De fato – disse o camponês.
É águia. Mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se
em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
– Não – retrucou o
naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este
coração a fará um dia voar às alturas.
– Não, não – insistiu o
camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.
Então decidiram fazer uma
prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
– Já que você de fato é uma
águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe!
A águia pousou sobre o braço
estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá
embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.
O camponês comentou:
– Eu lhe disse, ela virou
uma simples galinha!
– Não – tornou a insistir o
naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos
experimentar novamente amanhã.
No dia seguinte, o
naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:
-Águia, já que você é uma
águia, abra suas asas e voe!
Mas quando a águia viu lá
embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à
carga:
– Eu lhe havia dito, ela
virou galinha!
– Não – respondeu firmemente
o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos
experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.
No dia seguinte, o
naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para
fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol
nascente dourava os picos das montanhas.
O naturalista ergueu a águia
para o alto e ordenou-lhe:
– Águia, já que você é uma
águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe !
A águia olhou ao redor.
Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista
segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem
encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu
suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau
das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar
para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou... voou.. até confundir-se
com o azul do firmamento... "
E Aggrey terminou
conclamando:
– Irmãos e irmãs, meus
compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve
pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que
somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras,
abramos as asas e voemos. Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os
grãos que nos jogarem aos pés para ciscar.
3 – Contar e recontar no estilo dos hebreus
A história de James Aggrey é
realmente esplêndida. Evoca dimensões profundas do espírito, indispensáveis
para o processo de realização humana: o sentimento de auto-estima, a capacidade
de dar a volta por cima nas dificuldades quase insuperáveis, a criatividade
diante de situações de opressão coletiva que ameaçam o horizonte da esperança.
James Aggrey tinha razão:
cada pessoa tem dentro de si uma águia. Ela quer nascer. Sente o chamado das
alturas. Busca o sol. Por isso somos constantemente desafiados a libertar a
águia que nos habita.
Para resgatar essa águia,
orientemo-nos pela história desse educador ganense. O caminho de libertação se
tomará mais límpido, se recontarmos a história da águia enriquecendo-a com mais
dados. Assim teremos mais elementos de reflexão e de estímulo para seguir
caminhando.
Esse modo de recontar acrescentando
novos dados é próprio das culturas orais como as dos negros e dos indígenas. É
natural também nas famílias que guardam a memória de seus antepassados e da
cultura popular não escolarizada.
Os hebreus*, povo que na
Antigüidade ocupava o atual território de Israel, desenvolveram, com grande
capacidade, esse gênero literário. Os mestres em Israel, os rabinos e os
comentadores dos textos sagrados da Bíblia* e do Talmud*, chamavam este gênero
de midraxe*. Utilizavam-no com a intenção de atualizar e aprofundar a mensagem
dos pais de sua fé.
Existem dois tipos de midraxe: o halacá e o hagadá*. O midraxe-halacá explica e comenta,
atualizando, as leis judaicas. O midraxe-hagadá
amplia histórias bíblicas enfeitando-as com dados verdadeiros, legendários
ou fantásticos. O objetivo é sempre tirar lições edificantes e ampliar o
sentido para a vida. Com isso animavam as buscas de seu povo e conferiam brilho
à peregrinação humana. É esse segundo tipo de midraxe que nos vai interessar.
Antes de começar a nossa história,
vamos dar um exemplo de midraxe-hagadá. O
livro do Gênesis* , primeiro livro histórico da Bíblia, narra a criação do céu
e da terra e de todos os seres. Narra a origem de Adão a partir do pó da terra
e de Eva, a partir de uma costela de Adão. Aí encontramos também o que Deus
disse: "não é bom que Adão esteja só; vou dar-Ihe uma companheira que lhe
esteja à altura" (Gênesis 2,18).
Dentre todos os animais não
havia nenhum que pudesse ser para Adão um interlocutor adequado. Então Deus
criou Eva a partir do lado de Adão. Comumente se fala de forma errônea que Deus
criou Eva da costela de Adão. Em hebraico se usa a palavra zela que significa propriamente lado
e não costela. É uma metáfora
para significar que Eva foi tirada não da cabeça de Adão, para ser sua senhora.
Nem dos pés, para ser sua escrava. Mas do seu lado, do lado do coração, para
ser sua companheira. Ela sim é e poderá ser a interlocutora de Adão, conforme
ele mesmo exclama ao vê-Ia diante de si: "eis o osso dos meus ossos, a
carne da minha carne... por isso o homem-varão deixaráo pai e a mãe e se unirá
à sua mulher; serão uma só carne" (Gênesis 2,23-24).
Um outro texto dó mesmo
livro relata que "Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o
criou, macho e fêmea ele os criou " (Gênesis 1,27; 5,2).
A humanidade, segundo esses
textos, se realiza sempre sob a forma de homem e mulher, sob a diferença de
masculino e feminino. Ela é composta por Adãos e por Evas. Há uma relação
profunda entre homem e mulher. Eles se buscam no sono e na vigília. Há atração,
fascínio e magia no relacionamento entre eles.
Por que é assim? Para
responder a essa questão, elaborou-se um midraxe‑hagadá*.
Ele diz o seguinte: Originalmente o ser humano era simultaneamente
masculino e feminino. E ao mesmo tempo varão e mulher. No mesmo e único corpo,
tinha rosto e aparelho genital masculino na frente e feminino atrás.
Por causa do pecado, diz o midraxe-hagadá, Deus cortou este ser ao
meio. Assim se separaram o homem e a mulher, cada um com seu respectivo corpo.
Por isso, homem e mulher vivem até hoje separados. Mas, por uma paixão inata,
eles estão incansavelmente à procura de sua respectiva cara-metade. Sentem-se
atraídos um Apaixonam-se mutuamente. Enamoram-se. Amam-se . E, por fim, se
casam. Quando se unem amorosamente, fundem-se então um no outro. Tornam-se novamente uma só carne. E assim refazem o
projeto originário de Deus.
Esse midraxe-hagadá* quer esclarecer a unidade plural do ser humano,
masculino e feminino. Dá as razões da
separação que os atormenta. Explica a atração que vigora entre eles. E
fundamenta a vontade de se fundirem numa só realidade viva, através do amor.
Esse amor pode ser tão forte que os faz abandonar pai e mãe e fundar uma nova
família.
Vamos, então, na esteira
deste gênero literário hebraico, contar nosso midraxe-hagadá da águia-galinha.
4 – A águia cativa e libertada
Encontrei certa vez um
naturalista* que muito sabia de águias. Contei-lhe a história de ]ames Aggrey:
Ele ficou entusiasmado com a elegância da narração. Disse-lhe eu: ela bem se
aplica à condição humana; mas, para tanto, será necessário enriquecê-la com
mais detalhes, para torná-la mais desafiadora e fecunda. Quem sabe, acrescentei
eu, não deveríamos imitar os antigos mestres hebreus*, que acrescentavam, não
para falsificar a história, mas para torná-la melhor? E aí mesmo decidi assumir
esta tarefa de acrescentar para melhorar. Aproveitei a presença do naturalista
para colher o maior número possível de dados sobre as águias.
Foi então que ele me falou
por mais de duas horas sobre elas. Quantos tipos de águias existem. Onde vivem.
Como são seus hábitos. Como se enamoram. Como criam os filhotes. E como
terminam seus dias.
Falou-me da águia
brasileira, Harpia harpyja, chamada
pelos índios de uiraçu e canoho, outrora
senhora dos ares. Hoje, acuada pelo desmatamento selvagem, sobrevive nas
florestas acima da linha do equador, na região amazônica. Ela é imponente, com
um disco facial de penas e um soberbo cocar* por sobre a cabeça, que se eriça
ao menor ruído, conferindo-lhe majestade imperial. Este cocar é imitado pelos
chefes indígenas, que desta forma querem simbolicamente reforçar sua
autoridade.
Nessa espécie, as aves são
muito grandes, chegando a fêmea a pesar de sete a dez quilos e o macho de
quatro e meio a seis quilos.
Já se passaram muitos anos
depois de nossa conversa. Nunca mais vi esse naturalista*. Mas guardei bem na
memória os principais dados e no coração a semente de um fascínio por seu
simbolismo. Para desenvolvê-los, muito andei por bibliotecas e livrarias, em
busca de mais informações. Encontrei vários livros especializados, não só em
nosso idioma, mas também em outras línguas. Assim, muito aprendi sobre as
águias e delas tirei instrutivas lições para a vida.
Eis, então, a minha história
recriada como um midraxe-hagadá*:
Águias fazem ninhos no alto
das montanhas, em fendas bem abrigadas. Ou nos topos mais elevados de árvores
da floresta, lá onde ninguém pode chegar. Esses ninhos são usados muitas e
muitas vezes. Ano após ano, a águia volta para botar aí dois ou três ovos. E os
ninhos são sempre acrescidos com novos galhos e folhas verdes. Não raro, têm
dimensões consideráveis: um metro de altura, três de comprimento e dois de
largura. A base é feita de galhos grossos, forrada de folhas macias, às vezes com
folhas de eucaliptos para perfumar a casa e afugentar insetos. As águias são
cuidadosas na construção de seu hábitat.
1. Como vivem
as águias
A águia-fêmea choca somente
dois ovos. A águia-macho é coadjuvante nesta tarefa familiar de incubação, que
dura de 43 a 45 dias. Nasce então um primeiro filhote. Três a quatro dias após,
o segundo. Aí o filhote mais velho comete um aguicídio*: bica o irmãozinho
recém-nascido até matá-lo. Somente um em quatro filhotes sobrevive ao ataque do
irmão mais velho. Essa crueldade é um mistério da natureza. Talvez se ordene à
garantia do equilíbrio ecológico já que as águias são predadoras vorazes aponto
de ameaçar a existência de outras espécies como as preguiças, os preás e outros
animais de pequeno porte.
Quando filhote, a águia se
alimenta do que lhe é trazido já semidigerido no papo dos pais. Aos poucos vão
trazendo presas maiores, picadas em pedaços. Por fim, entregam-lhe um coelho
inteiro para que sozinha o despedace e coma.
Com a idade de 75-80 dias, a
águia-filhote já está adulta, do tamanho dos pais. Está madura para voar com
independência. Já tem os olhos de lince, o bico encurvado, a língua dura e
forte como pedra. Já lhe cresceram todas as penas, especialmente as das pernas.
Esta é uma das características pelas quais se diferencia de seus primos, como o
falcão e outras aves carnívoras da mesma espécie. Todos estes têm os pés
descobertos. A águia não. Os trinta tipos conhecidos de águias (Aquila rapax, Aquila audax, Aquila
verreauxii, Hieraetus billicosus, Spizaetus coronatus, Harpia harpyja) têm
penas cobrindo inteiramente as pernas até os pés. Agora está pronta para ganhar
o azul do céu, sobrevoar as montanhas mais altas, enfrentar ventos e
tempestades.
Uns dias antes de voar,
pode-se ver a águia-fi lhote acercando-se das bordas do ninho. Espia para o
abismo, pois lá embaixo, no chão, estão os animais que vai caçar. Ou para o
profundo dos céus, para a infinita liberdade, onde seus pais estão circulando,
ao sabor dos ventos. Se os olhos estão fixados no chão, é nas alturas que tem o
coração.
2. Como se
enamoram e se acasalam as águias
O casal de águias entretém
uma relação de fidelidade por toda a vida. Juntos caçam, juntos montam o ninho,
juntos incubam os ovos e juntos buscam alimento para os filhotes. Como entre os
humanos, o casal de águias não copula apenas para multiplicar a espécie ou em
certos períodos do ano por ocasião do cio. Surpreendentemente, copula com
freqüência. Na fase de enamoramento, até oito vezes ao dia. Depois de
acasalados, se amam em qualquer época do ano, como expressão de companheirismo
amoroso.
O enamoramento tem símbolos
de grande força. O macho, voando mais alto, se precipita como uma flecha por
sobre a fêmea que voa muitos metros abaixo. Ao aproximarem-se, a águia-fêmea se
volta sobre o dorso. Fica de peito para cima, expandindo as asas e estendendo
as garras na direção da águia-macho. E dá-se então o festival do encontro. A
águia-macho, vindo como uma flecha, de súbito paira no ar. Abre as asas e
entrelaça suas garras com as garras da águia-fêmea. Assim ficam, ora voando à
maneira de bicicleta, ora para frente, ora para os lados, ora deixando-se cair,
embevecidos pela paixão, até quase tocarem o solo. Só então se separam e voam
em forma de guirlanda, ascendendo para um novo abraço de garras e de volutas no
espaço.
Depois se acasalam. Antes,
porém, dá-se uma disputa feroz entre dois machos rivais. São lutas renhidas e
sangrentas. Podem durar horas. Garras, bicos, asas: eis as armas usadas um
contra o outro.
Às vezes se entrelaçam no
ar, a cem metros de altura. Esvoaçam penas por todos os lados. Despencam
enrolados um no outro até perto do chão. E aí se largam. Ganham novamente
altura e, revezando ataques mútuos, retomam a disputa. Às vezes rolam no chão,
numa nuvem de pó e de penas, num estardalhaço sanguinário. Até que um macho,
precipitando-se com fúria e violência sobre o outro, consegue atingi-lo
profundamente. A luta termina quando um se dá por vencido e ganha os longes do
céu, fugindo.
Conquistada a noiva, a
águia-macho ganha como troféu o seu território demarcado. E lá vive o casal
voando e caçando por muitos e muitos anos, felizes até que a morte os separe.
Uma águia vive cerca de trinta anos.
3. Como uma
águia virou galinha
Durante o tempo de
crescimento no ninho podem ocorrer acidentes. Uma rocha se desprende carregando
tudo consigo, ninho e filhotes. Pois assim, certa feita, infelizmente, ocorreu.
E aqui começa nossa história.
Numa tarde sonolenta de
verão, voltava um criador de cabras, do alto de uma planura verde, na floresta
atlântica do norte do estado do Rio de janeiro. Ao pé da montanha por onde
passava, encontrou, de repente, um ninho de águias todo estraçalhado.
Semicoberta de gravetos, uma jovem águia, ferida na cabeça. Parecia morta, toda
ensangüentada. Era uma águia rara, a águia-harpia brasileira, ameaçada de
extinção.
Recolhendo-a com cuidado
pensou:
– Vou levá-la ao meu vizinho
que é um amante de pássaros. Gosta de empalhar gaviões, garças, patos selvagens
e veados. Talvez ele queira empalhar este filhote de águia!
E assim fez, pois o caminho
passava junto à casa do empalhador. Este acolheu alegremente o criador de
cabras. Ficou admirado por se tratar de uma águia-harpia, rara naquela região.
Encheu-se de pena dela. Também ele supôs que estivesse morta. Colocou-a
ternamente debaixo de uma cesta.
Amanhã vou empalhá-la,
matutou resignadamente consigo mesmo. Embora pequena, vai ser uma ave soberba
depois de empalhada, enchendo de grandeza qualquer sala!
No dia seguinte, teve grata
surpresa. Ao retirar o cesto, percebeu que a águia se mexia levemente. As
garras, ainda novas, estavam fechadas. Havia feridas em várias partes do corpo.
A águia estava cega.
Novamente sentiu pena da
jovem águia. Por misericórdia quase quis sacrificá‑la. Pensando com seus
botões, encontrava até razões para isso: "Elas matam muitos animais
pequenos, especialmente preguiças e macacos. Desequilibram o sistema ecológico
circundante, pois cada casal de águias-harpia precisa de um território
exclusivo de caça de cinqüenta quilômetros quadrados, com incursões num raio de
mais de trezentos quilômetros".
Lembrou-se de ter lido nos
jornais que, há algum tempo, na região amazônica, foram encontrados perto de um
ninho restos de quarenta lebres e de mais de duzentos patos devorados por elas.
Sabia até que, na Austrália, as águias são mortas às centenas por serem
prejudiciais aos cangurus e a outros pequenos animais. Como lá não existem
abutres, são elas que comem animais putrefatos. Por isso são tão numerosas.
Lera numa revista sobre aves de rapina que, entre 1950‑1959, foram sacrificadas
120 mil águias australianas..
Pensava em tudo isso como
justificativa do atentado que, piedosamente, queria cometer. Mas nisso
lembrou-se da tradição espiritual de Buda* e de São Francisco*. Eles viviam e
pregavam uma ilimitada compaixão por todos os seres que sofrem. Recordou-se
também da ética ecológica que reza: "bom é tudo o que conserva e promove a
vida, mau é tudo o que diminui e elimina a vida". Até uma frase bíblica
veio-lhe à mente: "escolha a vida e viverá".
Por todos esses argumentos
convenceu-se de que não deveria sacrificar a águia. Decidiu preservá-la.
Começou, então, a tratá-la com carinho.
Ela, porém, pouco reagia.
Não procurava comida nem andava. Como era colocada, assim ficava. Sem luz e sem
sol, a águia não é águia.
Todo dia o empalhador
partia-lhe pedaços de carne e a alimentava com dificuldade. Depois de um ano
começou a perceber que os seus sentidos despertavam para a vida. Primeiro os
ouvidos reagiam felizes ao ruído dos passos, quando lhe traziam carne. Esticava
a cauda, geralmente em forma de cunha, e abria as asas alegremente.
Uma águia adulta pode
espraiar as asas numa extensão de mais de dois metros. A águia-harpia
brasileira tem uma envergadura de asas que vai de 2 a 2,5 metros de uma
extremidade à outra. As asas abertas da águia dos Andes, o condor, medem entre
2,9 e 3,5 metros.
Depois começou a mover-se
por si mesma. Andava pela sala e pelo
jardim. Postava-se sobre um tronco mais alto. Por fim, recuperou sua própria
voz, o kau-kau típico da águia.
Mas, continuava cega. Os
olhos são tudo para uma águia. Seu olhar penetrante vê oito vezes mais que o
olho humano. A retina é em parte monocular, orientada para coisas de perto, e
em parte binocular, dirigida para as coisas de longe. Vê e controla tudo porque
consegue girar a cabeça em 180 graus. Discerne o focinho de um coelho que espia
da toca ou uma gazela no meio dos arbustos a mais de 1.600 metros de distância.
Então arremete como uma flecha.
Contrariamente ao que se
pensa, ela não mata com o bico, mas só com as garras que funcionam como
punhais. As garras da águia-harpia são maiores e mais afiadas do que as do urso
pardo dos Estados Unidos. O bico tira pedaços de carne com a ajuda da língua,
musculosa e forte.
Por fim, o empalhador
decidiu colocá-la junto às galinhas. Uma águia não é uma galinha. Mas a galinha
pode provocá-la para viver, para locomover-se e, quem sabe, para despertar em
si a imagem das alturas e buscar, um dia, o sol. Quem sabe... os olhos poderão
renascer? ...
Mas há também o risco de a
águia esquecer o céu e o vasto horizonte do sol e acomodar-se aos limites
estreitos do terreiro das galinhas. Poderá comportar-se como galinha. Será que
vai virar galinha?
E foi assim que a jovem
águia continuou a ser criada com as galinhas. Durante dois anos circulava,
cega, entre elas. Andava com dificuldade, pois suas garras não foram feitas
para andar. Ciscava aqui e ali como fazem as galinhas, mas sem poder ver.
Eis que, um belo dia, o
empalhador se deu conta de um milagre. A águia via. Sim, via e já distinguia os
alimentos. Seus olhos eram enormes. Na verdade, eles são tão grandes como os
olhos humanos, embora uma águia pese 28 vezes menos que um ser humano normal.
Enfim, a águia estava curada
e perfeita! Depois de três anos de paciente cuidado, ela recuperara seu corpo
de águia. Contudo à força de viver com galinhas virara, também ela, uma
galinha. Vivia com as galinhas, ciscava com as galinhas, dormia no poleiro com
as galinhas. O empalhador, ocupado em seu ofício de empalhar aves, já se
acostumara com a águia-galinha entre as demais galinhas. Esqueceu-se dela.
4. Como a
galinha-águia despertou
A águia recuperara seu
corpo. Mas, e o coração? Será que tinha perdido seu coração de águia? Essa
pergunta foi suscitada, um dia, por certo fato curioso.
Certa manhã ensolarada,
sobrevoou o galinheiro um casal daquelas águias brasileiras grandes e
imponentes. Fez violentos vôos rasantes, atraído pelos pintainhos que por lá
circulavam despertando seu instinto e apetite.
Foi aquela correria geral.
As águias só não caçaram os pintainhos porque o empalhador veio correndo em seu
socorro.
Ao perceber o casal de
águias no céu, a águia-galinha espalmava as asas, sacudia a cauda e ensaiava
pequenos vôos. O sol começava a despertar em seus olhos.
Foi então que o nosso
empalhador se deu conta. A águia-galinha começava a despertar para o seu
ser-águia. Seu coração de águia voltava a pulsar aos poucos.
O casal de águias foi embora
em elegantes vôos circulares. A águia-galinha se aquietou. Um pouco mais e mais
um pouco, enturmou-se às companheiras galinhas. No entanto, algo havia
acontecido com ela. Vez por outra, quando águias sobrevoavam o terreiro, virava
a cabeça para poder vê-las melhor. Procurava identificar suas verdadeiras irmãs
águias. Ensaiava pequenos vôos com o ruflar de suas gigantescas asas. Mas logo
voltava à sua segunda natureza de galinha-águia.
Nesse momento, o empalhador
começou a dar-se conta desses pequenos sinais. Disse consigo mesmo:
– Uma águia é sempre uma
águia. Ela possui uma natureza singular. Tem as alturas dentro de si. O sol
habita seus olhos. O infinito dos espaços anima suas asas para enfrentar os
ventos mais velozes. Ela é feita para o céu aberto. Não pode ficar aqui
embaixo, na terra, presa ao terreiro como as galinhas.
Passado um tempo, o
empalhador recebeu a visita de um naturalista* amigo. Conversaram sobre as aves
da região e foram observar aquela águia tornada galinha. O naturalista ficou
perplexo com a capacidade adaptativa da águia. Logo ponderou:
A águia jamais será galinha.
Ela possui um coração. E este é de águia. Ele a fará voar. Ela voltará a ser
plenamente águia.
Aí mesmo decidiram fazer um
teste. Queriam ver o quanto da águia originária ainda vivia dentro da
águia-galinha. O empalhador tomou uma proteção de couro para o braço a fim de
não ser espetado pelas garras pontiagudas da águia. A muito custo conseguiram
pegá-la. O empalhador colocou-a no braço estendido, sustentando seu peso de
mais de três quilos. Animado pelo amigo falou-lhe com voz imperiosa:
– Águia, você nunca deixará
de ser águia! Você já sobreviveu a tantas desgraças! Você recuperou, um dia,
seus olhos. Você é feita para a liberdade e não para o cativeiro. Então,
estenda suas asas! Erga-se! E voe para o alto.
A águia parecia abobada. Não
fez sequer um movimento. Ao olhar em redor de si, vendo as galinhas comendo
milho, deixou-se cair pesadamente. E somou-se a elas.
Encorajado pelo amigo
naturalista*, o empaIhador não desanimou. Ponderou com ele:
– Uma águia tem dentro de si
o chamado do infinito. Seu coração sente os picos mais altos das montanhas. Por
mais que seja submetida a condições de escravidão, ela nunca deixará de ouvir
sua própria natureza de águia que a convoca para as alturas e para a liberdade!
No dia seguinte, agarrou a
águia quando ainda estava no galinheiro. Colocou novamente a proteção de couro
e subiu com seu amigo ao terraço de sua casa. Sob o olhar de expectativa do
naturalista, disse-lhe com convicção:
– Águia, já que você é e
será sempre águia, desperte de seu sono. Liberte sua natureza feita para as
alturas. Deixe nascer o sol dentro de você.
Abra suas asas! E voe para o
infinito!
A águia parecia totalmente
distraída diante de palavras tão comovedoras. Olhou para baixo. Viu as galinhas
ciscando o chão e bebendo água no cocho. O empalhador lançou-a lá de cima, na
esperança de que voasse. Ela despencou pesadamente. Voou apenas alguns metros,
como voam as galinhas. Tentou uma, duas, até três vezes. E a águia não chegava
a voar. Comentou com seu amigo naturalista*:
– Efetivamente, nesta
galinha-águia, a galinha parece triunfar.
5. Como a galinha-águia
voltou a ser águia
Aí ambos se lembraram da
importância do sol para os olhos da águia. Ponderou com razão o naturalista*:
– Ela é filha do sol. Desde
pequena aprendeu a sorvê-lo pelos olhos. A mãe‑águia segura o filhote na
direção do sol. Acostuma seus olhos ao resplendor solar. Certamente – asseverou
– é por causa disso que as águias, desde pequenas até a idade adulta, têm os
olhos com as cores típicas do sol, o amarelo brilhante ou o alaranjado forte.
Somente bem mais tarde, à força de olhar para o chão em busca de presas, seus
olhos assumem a cor da terra. Tornam-se castanhos.
O empalhador completou estas
idéias com a seguinte indagação:
– Não será, por acaso, o sol
que irá devolver-lhe a identidade perdida? Reanimar seu coração adormecido?
O naturalista* confirmou-lhe
a ponderação.
No dia seguinte, bem cedo,
levantaram-se antes de o sol nascer. O amanhecer estava esplêndido. A fímbria
das montanhas escuras se destacava do fundo roxo do céu. Do lado do nascente,
os primeiros raios douravam o cimo das rochas, avermelhando-as.
Para lá rumaram o empalhador
e seu amigo naturalista levando a águia‑galinha. Quando chegaram ao alto, o sol
despontava, fagueiro, por detrás das montanhas. Os raios eram doces. A natureza
despertava ressuscitada do langor da noite.
O empalhador de aves colocou
a proteção de couro, sustentou fortemente a águia e sob o olhar confiante do
naturalista lhe disse:
– Águia, você que é amiga
das montanhas e filha do sol, eu lhe suplico: Desperte de seu sono! Revele sua
força interior. Reanime seu coração em contato com o infinito! Abra suas
potentes asas. E voe para o alto!
A águia mostrou-se
surpreendentemente atenta. Parecia voltar a si depois de um longo esquecimento.
Olhou ao redor, viu as montanhas e estremeceu. Por mais que o empalhador a
ajudasse, com movimentos para cima e para baixo, ela não superava o medo. Ele
não conseguia fazê-la voar.
Então, a conselho do
naturalista*, tomou-a firmemente entre as duas mãos e, por bom espaço de tempo,
segurou-a pela cabeça na direção do sol. Os olhos da águia se iluminaram.
Encheram-se do brilho juvenil do sol, amarelo e alaranjado forte.
– Agora sim ela vai renascer
como águia! O sol vai irromper dentro de sua alma! – proclamou entusiasmado o
empalhador de aves.
Com voz forte e decidida
retomou:
– Águia! Você nunca deixou
de ser águia! Você pertence ao céu e não à terra.. Mostre agora que você é de
fato uma águia. Abra seus olhos. Beba o sol nascente. Estenda suas asas.
Erga-se sobre você mesma e ganhe as alturas. Águia, voe!
Segurou-a firmemente pelas
pernas emplumadas. Alçou-a para cima. Deu-lhe um último impulso.
Oh, surpresa! A águia
ergueu-se, soberba, sobre seu próprio corpo. Abriu as longas asas titubeantes.
Esticou o pescoço para frente e para cima, como para medir a imensidão do
espaço. Alçou vôo. Voou na direção do sol nascente. Ziguezagueando no começo,
mais firme depois, voou para o alto, sempre para mais alto, para mais alto ainda,
até desaparecer no último horizonte.
Acabara de irromper
plenamente a águia até aqui prisioneira da galinha. Finalmente livre para voar,
e voar como águia resgatada rumo ao infinito. E assim voou! Voou até fundir-se
no azul do firmamento.
5 – A águia e a galinha convivem em nós
A história que acabamos de
contar no estilo do midraxe-hagadá* hebreu
representa uma poderosa metáfora da existência humana.
Para onde olharmos,
encontraremos a dimensão-galinha e a dimensão-águia. Elas vêm revestidas de muitos
nomes: realidade e sonho, necessidade e desejo, história e utopia, fato e
idéia, enraizamento e abertura, corpo e alma, poder e carisma, religião e fé,
partícula e onda, caos e cosmos, sistema fechado e sistema aberto, entre
outros.
1.
Complexidade: a estrutura básica do universo
Todos esses pares são
expressões da complexidade de uma mesma e única realidade. Complexidade é uma das características mais visíveis da realidade
que nos cerca. Por ela queremos designar os múltiplos fatores, energias, relações,
inter-retro-reações que caracterizam cada ser e o conjunto dos seres do
universo. Tudo está em relação com tudo. Nada está isolado, existindo
solitário, de si e para si. Tudo co-existe e inter-existe com todos os outros
seres do universo.
A ciência moderna, nascida
com Newton*, Copérnico* e Galileu Galilei*, não soube o que fazer com a
complexidade. A estratégia foi reduzir o complexo ao simples.
Por exemplo, ao contemplar a
natureza, ao invés de analisar ateia de relações complexas existentes, os cientistas
tudo compartimentaram e isolaram. Não consideraram relevantes os
relacionamentos em todas as direções, para frente, para trás, para dentro e
para cima, que todas as coisas e todos os seres (rochas, ventos, águas,
florestas, animais, homens e mulheres) estabelecem entre si.
Assim, começaram a estudar
só as rochas, ou só as florestas, ou só os animais, ou só os seres humanos. Ou,
nos seres humanos, só as células, só os tecidos, só os órgãos, só os
organismos, só os olhos, só o coração, só os ossos, etc. Desse estudo nasceram
os vários saberes particulares e as várias especialidades. Ganhou-se em
detalhe, mas perdeu-se a totalidade. Houve um formidável esquecimento do ser em
favor do existente. Desapareceu, destarte, a percepção da totalidade e da complexidade.
Não existe a célula sozinha.
Ela é parte de um tecido, que é parte de um órgão, que é parte de um organismo,
que é parte de um nicho ecológico, que é parte de um ecossistema, que é parte
do planeta Terra, que é parte do Sistema Solar, que é parte de uma galáxia, que
é parte do Cosmos, que é uma das expressões do Mistério ou de Deus. Tudo tem a
ver com tudo. A complexidade procura respeitar essa totalidade orgânica, feita
de relações em rede e de processos de integração.
A natureza e o universo não
constituem simplesmente o conjunto dos objetos existentes, como pensava a
ciência moderna. Constituem, sim, uma teia de relações, em constante interação,
como os vê a ciência contemporânea. Os seres que interagem deixam de ser apenas
objetos. Eles se fazem sujeitos, sempre relacionados e interconectados,
formando um complexo sistema de inter-retro-relações. O universo é, pois, o
conjunto das relações dos sujeitos.
As dualidades antes
referidas são dimensões da mesma e única realidade complexa. Formam uma
dualidade, mas não um dualismo. Errôneo seria confundir dualidade com dualismo.
O dualismo vê os pares como
realidades justapostas, sem relação entre si. Separa aquilo que, no concreto,
vem sempre junto. Assim, pensa o esquerdo ou
o direito, o interior ou o
exterior, o masculino ou o feminino.
A dualidade, ao contrário,
coloca e onde o dualismo coloca ou. Enxerga os pares como os dois lados
do mesmo corpo, como dimensões de uma mesma complexidade. Complexo é tudo
aquilo que vem constituído pela articulação de muitas partes e pelo
inter-retro-relacionamento de todos os seus elementos, dando origem a um
sistema dinâmico sempre aberto a novas sínteses.
Elencamos abaixo alguns
exemplos de realidades complexas, onde aparecem a dualidade e as dimensões de águia
e de galinha.
a) A realidade feita de caos
e de cosmos
A ciência contemporânea, a
partir da nova física, da biologia molecular, da teoria geral dos sistemas, da
informática, da psicologia transpessoal e do desenvolvimento da ecologia, se
convenceu da importância da relação caos-cosmos, desequilíbrio-equilíbrio,
desordem-ordem, na constituição do universo e na construção do humano.
Havia inicialmente um
concentrado inimaginável de matéria-energia em perfeito equilíbrio. Sem
sabermos por quê, ocorreu o big-bang*. Este
significa a explosão potentíssima daquele concentrado, lançando energia e
matéria em todas as direções. O big-bang expressa,
assim, uma primeira e incomensurável instabilidade, um caos de dimensões
incalculáveis. Tudo explode e se expande. A explosão significa a irrupção da
desordem. A expansão, porém, significa a constituição da ordem. O universo,
cada ser, cada coisa, contêm dentro de si os dois movimentos, o caos (
desordem) e o cosmos (ordem).
O caos não é simplesmente
"caótico". Ele se mostra generativo e autocriativo. Abre espaço para
a organização e para a constituição de ordens cada vez mais elegantes
(cosméticas) e portadoras de sentido.
A situação atual é esta: o
universo não é totalmente caótico, nem totalmente cosmético. É a combinação de
ambos. Ele se apresenta ordenado a ponto de provocar o fascínio e a veneração
dos maiores cientistas como Newton*, Einstein* e Prigogine*, e de cada um de
nós, simples admiradores da criação.
Ao mesmo tempo, essa ordem é
frágil, submetida ao desequilíbrio e à situação de caos. Assim é o caminhar de
todas as coisas: ordem-desordem-interação-nova ordem. O caos nunca é absoluto e
a ordem, jamais estável. Tudo está em processo permanente e aberto, em busca de
um equilíbrio dinâmico. Por isso falamos, com razão, de cosmogênese* e de
antropogênese*. Quer dizer, em gênese do cosmos e em gênese do ser humano. Eles
estão ainda em processo de nascimento. Não acabaram ainda de nascer. Não são
perfeitos, mas perfectíveis. Esse processo, na medida em que avança, tende a
criar mais e mais diversidades e, com isso, a reforçar a complexidade.
Ilya Prigogine, prêmio Nobel
de 1.977, e sua equipe em Bruxelas e em Austin, nos Estados Unidos, tiveram o
mérito de mostrar que a ordem se faz através da flutuação (desordem, distância
do equilíbrio) .Essa lei não vale apenas para os seres vivos de sistemas
abertos que sempre intercambiam com o meio, realimentam e refazem o equilíbrio
dinâmico. Constitui, sim, o mecanismo principal do processo evolucionário em
todos os domínios, nos campos energéticos, nos átomos, nas galáxias, nos
sistemas biológicos, nas sociedades humanas, nas culturas e nas pessoas.
Desta forma, se tem hoje uma
visão unificada da evolução que se estrutura na dinâmica tensa entre caos e
cosmos, ordem e desordem. Sempre na busca de um equilíbrio dinâmico, capaz de
realizar novas virtualidades presentes na criação.
Tal visão nos ajuda a
iluminar o espinhoso problema do mal. Na perspectiva cosmogênica* e dinâmica, o
mal é uma condição originária. A Força Criadora-de-tudo faz e fez surgir os
seres mais diversos, todos provisoriamente incompletos. Eles se vêem enredados
na necessidade intrínseca de passar por vários estágios até chegar à sua
plenitude possível. Nesse sentido, no nível humano, pecado seria rechaçar esta
dinâmica, não querer crescer e resistir ao oferecimento de mais ordem e de mais
vida.
b) A realidade como onda e
como partícula
Além da dualidade
caos-cosmos, existe a outra, a partícula-onda. Esta se apresenta também na
própria estruturação da realidade, assim como é entendida pela ciência
contemporânea.
Na década de 1920 deste
século, cientistas como Niels Bohr*, Wemer Heisenberg*, fundadores da física
quântica, e Albert Einstein*, com sua teoria da relatividade, construíram uma
nova compreensão da estrutura da matéria. Os seres todos do universo não estão
simplesmente justapostos uns aos outros ou aí jogados como bolas de bilhar se
entrechocando. Eles constituem sistemas muito bem articulados onde todos têm a
ver com todos.
Mais ainda. Eles são
energia, densificada e estabilizada dentro de campos energéticos, sempre em
movimento e em relação com outros. Todos os elementos atômicos e subatômicos
apresentam um comportamento dual. Ora se comportam como partículas materiais,
com massa concretizada num ponto específico do espaço, ora se comportam como
ondas que se espraiam em feixes em todas as direções.
O observador humano está
inserido intimamente em todo esse processo. De tal maneira que ele ajuda a
determinar a natureza dos fenômenos. Se ele decide captar ondas, capta
efetivamente ondas. Se quer, ao contrário, captar partículas, capta,
infalivelmente, partículas.
A luz, por exemplo,
constitui um caso paradigmático. Ela pode ser compreendida como onda, que
atravessa de ponta a ponta todo o universo (Quem a empurra? Quem lhe dá
velocidade? Eis enigmas ainda não respondidos pela ciência). Ou, como partícula material, que pode ser
retida, estocada e desviada. Como a luz, todos os demais fenômenos elementares
apresentam a mesma natureza dual, ora de onda energética, ora de partícula
material.
Niels Bohr* sugeriu o
princípio da complementaridade entre a partícula e a onda, como chave para
entender, de forma global, a realidade. Embora pareçam contraditórios, os dois
comportamentos de onda e de partícula se complementam. O paradoxo* pertence à
dinâmica do universo. Tudo é complementar. A dualidade se insere numa
totalidade, conferindo-lhe dinamismo e elegância.
Einstein* demonstrou com
genialidade que matéria e energia são intercambiáveis. Matéria pode virar
energia. Energia pode condensar-se em matéria. Expressou-o numa fórmula
extremamente simples: E= mc2 (energia é igual à matéria quando
submetida ao quadrado da velocidade da luz).
c) A unidade complexa
corpo-alma
Também corpo-alma não são
duas realidades justapostas do ser humano. São duas dimensões do único e
complexo ser humano. Como conseqüência, não deveríamos falar de corpo e de
alma, mas de homem-corpo e de homem-alma ou de mulher-corpo e de mulher-alma.
Cada um é totalmente homem/mulher-corpo
na medida em que tem exterioridade. Que vive dentro de um certo sistema
ecológico, no mundo concreto de uma raça, de um país, de uma parentela, de uma
profissão. Que tem necessidade de comer, beber, vestir, morar, fazer amor. Que
se encontra territorializado* pelo espaço e pelo tempo e submetido ao processo
de desgaste da força vital até o seu lento e completo esgotamento pela morte.
Na nossa metáfora*, essa dimensão-corpo corresponde, em nós, à
dimensão-galinha.
Ao mesmo tempo, cada um é
totalmente homem/mulher-alma na medida em que possui interioridade. Que capta a
ressonância das coisas dentro de si, que experimenta e não apenas sabe e que se
sente conectado com o cosmos como um todo dinâmico. Que se move no ilimitado do
desejo, do sentimento, do amor e do pensamento. Que faz a ultrapassagem de
todos os limites do espaço e do tempo (pelo espírito, habitamos as estrelas e
temos o universo dentro de nós) .Que pode entreter uma relação de intimidade
para com a realidade suprema, Deus. É a dimensão-alma que corresponde em nós à
dimensão-águia.
O ser humano é uno e
complexo, constituído de corpo-e-alma. Ele não tem corpo e alma. É corpo e
alma. Pertence ao lado trágico de nossa cultura ocidental ter separado corpo e
alma. Essa separação ocasionou, por um lado, o surgimento de uma cultura
materialista assentada exclusivamente sobre o corpo, entendido como um objeto
sem profundidade (alma). O império dos sentidos, do desfrute, da utilização das
coisas para benefício do ser humano: o domínio da galinha.
Por outro, favoreceu uma
cultura espiritualista, baseada exclusivamente no espírito, na experiência
subjetiva, desenraizada da matéria, pairando soberanamente sobre a densidade do
real. Espírito feito refém de suas idéias, projeções e teorias, alienado da
luta cotidiana e comum dos mortais. É o reino da águia.
"Galinismo"* e
"aguiismo"*, materialismo e espiritualismo, positivismo e utopismo,
derivam desse desvio da antropologia ocidental. Ao invés de expressar a
complexidade da única e mesma realidade humana, essas categorias de pensamento
acabaram por reduzi-la e por dividi-la. Criaram disjunções falsas e oposições
excludentes: a galinha de um lado e a águia do outro. O corpo e a matéria de um
lado e o espírito e a alma do outro. E, o que é grave, em guerra entre si.
Perdeu-se a complexidade e o jogo das relações de tudo com tudo. A matéria não
é espiritualizada e o espírito não é corporalizado.
Vejamos um exemplo. Posso e
devo analisar o Emanuel em sua complexidade concreta: brasileiro, branco,
escolarizado, casado, taxista, torcedor do Fluminense, católico. Mora no
subúrbio popular e é entusiasta da floresta vizinha, que freqüentemente visita
com os amigos, recolhendo latas de coca-cola dos caminhos e abraçando árvores
como fazem os chineses. Posso acrescentar mil outros dados concretos de sua
vida e prática. É o Emanuel na sua dimensão-galinha, definido e enquadrado em
uma realidade concreta e complexa.
Mas o Emanuel não é apenas
essa dimensão. É uma fonte inesgotável de virtualidades e possibilidades: pode
\mudar de nacionalidade, divorciar-se, tornar-se um chofer de caminhão, torcer
pelo Flamengo e converter-se ao candomblé. Quem sabe, pode, por uma feliz
oportunidade, revelar-se um artista de cinema, um excelente pintor retratista
ou um poeta repentista. Pior, pode transformar-se num bandido, assaltante de
banco ou assassino de crianças de rua. Pode também passar por uma crise
religiosa. Fazer-se monge zen-budista, tornar-se um mestre espiritual e um
santo.
Tudo isso compõe a realidade
virtual do Emanuel. É o Emanuel na sua dimensão-águia.
A primeira dimensão –
galinha – funda o positivismo. A segunda – a águia – o idealismo. Erro seria
separar o que em Emanuel vem junto: sua , dimensão discernível, concreta e
palpável – galinha. Ou, sua dimensão possível, virtual e utópica – águia.
Não podemos fragmentar o
Emanuel real. Ele é tudo isso, junto e simultaneamente, galinha e águia.
Analisá-lo apenas por um ângulo é fazer-lhe injustiça. Ou o sepultaríamos em
sua condição concreta, sem deixá-lo romper a estreiteza do galinheiro,
condenando-o à situação-galinha. Ou o deixaríamos em suas possibilidades e
promessas, sem criar-lhe condições de realização concreta, tolhendo-lhe sua
dimensão-águia.
O factual e o virtual são
simultâneos. O virtual pertence ao real, ao seu lado possível. O real é o
virtual realizado, antecipado e historiado dentro das condições de nosso
espaço-tempo. Portanto, sempre de forma delimitada e territorializada*.
O que dissemos aqui da
dimensão corpo/alma, podemos também dizer dos outros pares ou dualidades
referidas acima.
d) A unidade complexa
fé-religião
A mesma dialética ocorre
entre religião e fé. A religião é concreta. Possui credo, moral, teologia,
santos e santas, hierarquia, templos, festas, ritos e celebrações. Não é permitido,
por exemplo, celebrar publicamente uma missa católica de qualquer maneira, sem
seguir o rito oficial. É a dimensão-galinha.
Mas existe a fé que
significa o encontro vivo com Deus. Aqui não valem normas. Emudecem as
palavras. Cessam as imagens. E empalidecem as celebrações, em face da grandeza
transbordante de Deus. Diante da suprema Alteridade e do eterno Amor, o ser
humano muda o estado de consciência. Entra num estado místico. Tudo fica
numinoso* e carregado de energia divina. Deixa o universo para trás e se
entrega reverente e silenciosamente ao Mistério. Ou estabelece um diálogo
direto com o Supremo, onde palavras e conceitos eventualmente usados ganham uma
significação transfigurada e metafórica*. Dessa experiência nasce toda a
criatividade própria dos mestres do Espírito. É a dimensão-águia.
Por trás de toda religião
institucionalizada se esconde a experiência espiritual de alguém que vivenciou
a Realidade última. Assim o foi com Buda*, Moisés*, Jesus, Maomé*, Rumi*, S.
Francisco de Assis* , o Mestre Eckhart* , S. João da Cruz* , Santa Teresa* ,
Gandhi* , Thomas Merton*, Simone Weil*, Dom Helder Câmara, Madre Teresa de
Calcutá* , Dom Oscar Arnulfo Romero*, assassinado diante do altar em El
Salvador, na América Central, e outros tantos.
Função da religião é criar
as condições para que cada pessoa possa realizar seu mergulho no Ser e
encontrar-se com Deus, Útero de infinito aconchego e paz.
A religião representa a
dimensão-galinha, a fé, a dimensão-águia. Ambas convivem e juntas devem
colocar-se a serviço do ser humano e de Deus.
e) A unidade complexa
ética-moral
Consideremos a tensão de uma
outra dualidade, a ética e a moral. Talvez a etimologia das palavras ética e
moral iluminem essa complexidade.
Ethos – ética, em grego – designa a morada humana. O ser humano separa uma
parte do mundo para, moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e
permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma
só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para
si.
Ético significa, portanto,
tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia
saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e
espiritualmente fecunda.
Na ética há o permanente e o
mutável. O permanente é a necessidade do ser humano de ter uma moradia: uma
maloca indígena, uma casa no campo e um apartamento na cidade. Todos estão
envolvidos com a ética, porque todos buscam uma moradia permanente.
O mutável é o estilo com que
cada grupo constrói sua morada. É sempre diferente: rústico, colonial, moderno,
de palha, de pedra... Embora diferente e mutável, o estilo está a serviço do
permanente: a necessidade de ter casa. A casa, nos seus mais diferentes
estilos, deverá ser habitável.
Quando o permanente e o
mutável se casam, surge uma ética verdadeiramente humana.
Moral, do latim mos, mores, designa os costumes e as
tradições. Quando um modo de se organizar a casa é considerado bom aponto de
ser uma referência coletiva e ser reproduzido constantemente, surge então uma
tradição e um estilo arquitetônico. Assistimos, ao nível dos comportamentos
humanos, ao nascimento da moral.
Nesse sentido, moral está
ligada a costumes e a tradições específicas de cada povo, vinculada a um
sistema de valores, próprio de cada cultura e de cada caminho espiritual.
Por sua natureza, a moral é
sempre plural. Existem muitas morais, tantas quantas culturas e estilos de
casa. A moral dos yanomamis é diferente da moral dos garimpeiros. Existem
morais de grupos dentro de uma mesma cultura: são diferentes a moral do
empresário, que visa o lucro, e a moral do operário, que procura o aumento de
salário. Aqui se trata da moral de classe. Existem as morais das várias
profissões: dos médicos, dos advogados, dos comerciantes, dos psicanalistas,
dos padres, dos catadores de lixo, entre outras. Todas essas morais têm de
estar a serviço da ética. Devem ajudar a tornar habitável a moradia humana, a
inteira sociedade e a casa comum, o planeta Terra.
Existem sistemas morais que
permanecem inalterados por séculos. São renovadamente reproduzidos e vividos
por determinadas populações ou regiões culturais. Assim, a poligamia entre os
árabes e a monogamia das culturas ocidentais. Por sua natureza, a moral se
concretiza como um sistema fechado.
De que forma se articulam a
ética e a moral? Respondemos simplesmente: a ética assume a moral, quer dizer,
o sistema fechado de valores vigentes e de tradições comportamentais. Ela
respeita o enraizamento necessário de cada ser humano na realização de sua vida,
para que não fique dependurada das nuvens.
Mas a ética introduz uma
operação necessária: abre esse enraizamento. Está atenta às mudanças
históricas, às mentalidades e às sensibilidades cambiáveis, aos novos desafios
derivados das transformações sociais. Ela impõe exigências a fim de tornar a
moradia humana mais honesta e saudável. A ética acolhe transformações e
mudanças que atendam a essas exigências. Sem essa abertura às mudanças, a moral
se fossiliza e se transforma em moralismo.
A ética, portanto, desinstala
a moral. Impede que ela se feche sobre si mesma. Obriga-a à constante renovação
no sentido de garantir a habitabilidade e a sustentabilidade da moradia humana:
pessoal, social e planetária.
Concluindo, podemos dizer: a
moral representa um conjunto de atos, repetidos,
tradicionais, consagrados. A ética corporifica um conjunto de atitudes que vão além desses atos. O ato
é sempre concreto e fechado em si mesmo. A atitude é sempre aberta à vida com
suas incontáveis possibilidades. A ética nos possibilita a coragem de abandonar
elementos obsoletos das várias morais. Confere-nos a ousadia de assumir, com
responsabilidade, novas posturas, de projetar novos valores, não por modismo,
mas como serviço à moradia humana.
Não basta sermos apenas
morais, apegados a valores da tradição. Isso nos faria moralistas e
tradicionalistas, fechados sobre o nosso sistema de valores. Cumpre também
sermos éticos, quer dizer, abertos a valores que ultrapassam aqueles do sistema
tradicional ou de alguma cultura determinada. Abertos a valores que concernem a
todos os humanos, como a preservação da casa comum, o nosso esplendoroso
planeta azul-branco. Valores do respeito à dignidade do corpo, da defesa da
vida sob todas as suas formas, do amor à verdade, da compaixão para com os
sofredores e os indefesos. Valores do combate à corrupção, à violência e à
guerra. Valores que nos tomam sensíveis ao novo que emerge, com
responsabilidade, seriedade e sentido de contemporaneidade.
Há pessoas que insistem em
morar em suas casas antigas, sem delas cuidar e sem adaptá-las às novas
necessidades. Elas deixam de ser o que deveriam ser: aconchegantes, protetoras
e funcionais. É a moral desgarrada da ética. A ética convida a reformar a casa
para torná-la novamente calorosa e útil como habitação humana. Como o filósofo
grego Heráclito dizia: "a ética é o anjo protetor do ser humano".
Por essa atitude ética, os atos morais acompanham a dinâmica da vida. A moral deve renovar-se
permanentemente sob a orientação e a hegemonia da ética. Cabe à ética garantir
a moradia humana, sob diferentes estilos, para que seja efetivamente habitável.
2. A Escola de
Atenas, de Rafael, e o Mago do Tarô: duas filosofias de vida
Concluamos estas reflexões
com a evocação de um famoso quadro do pintor renascentista Rafael*, a Escola de Atenas, pintado em 1510. Aí se
representam duas figuras decisivas para o paradigma ocidental: Platão* e
Aristóteles*. Além de serem dois filósofos maiores, são expressão de dois modos
de ser ou de duas filosofias de vida: o realismo e o idealismo, a águia e a
galinha.
Platão aponta com uma das
mãos para cima, para o ideal, para o céu. Com a outra, segura o livro Timeu onde expõe a primazia das idéias
sobre a realidade sensível. É o homem do mundo ideal, da essência perfeita de
cada ser, da utopia, dos grandes sonhos, da abertura infinita do ser humano: a
águia.
Aristóteles, ao contrário,
aponta para baixo, para a realidade empírica, para a terra. Segura o livro Etica, no qual apresenta os princípios
orientadores para a prática humana rumo à felicidade. É o homem do realismo,
dos projetos viáveis, do caminho bem definido, da prática concreta: a galinha.
Ambos têm sua razão de ser.
Somente integrando Platão* e Aristóteles*, céu e terra, real e ideal, águia e
galinha, a vida poderá caminhar com os dois pés: um firme no chão e outro
levantado, como quem anda para frente, na direção certa.
Muitos atualmente são
sensíveis aos saberes alternativos, articulados secularmente pela astrologia,
pelo jogo do Tarô* ou do I Ching* , entre outros. Neles também emerge a busca
do equilíbrio dinâmico a partir das duas dimensões. A primeira carta do Tarô
representa a figura do Mago. Ele está em pé sobre duas pernas bem firmes no
alto de uma montanha. Uma mão aponta para o céu, a outra, para a terra. Em seu
chapéu se vê um oito deitado, símbolo matemático do infinito. Sua vestimenta é
colorida, metade de uma cor e metade de outra. Sobre a mesa estão seus
instrumentos de magia: um bastão, um cálice, uma espada com cabo em cruz, uma
moeda. Debaixo da mesa cresce uma flor, expressão da energia da vida e do
universo.
Ele é um ícone da existência
humana distendida entre o céu e a terra, entre o finito e o infinito, entre o
material e o espiritual. Representa o desafio de construir um centro que acolha
e dinamicamente sintetize as duas partes. Por isso ele é mago, pessoa capaz de
transformar alquimicamente* as partes dentro de um todo orgânico: o material
com seu peso e espessura e o espiritual com sua leveza e sentido. Uma vez mais
a águia e a galinha buscando uma central idade que confira, simultaneamente,
dinamismo, concreção e transparência à vida humana..
3. Sistemas
fechados e abertos
Finalmente queremos chamar
atenção para a estrutura básica que preside a todos os fenômenos, especialmente
os vitais: seu caráter fechado e, ao mesmo tempo, aberto.
Na verdade, tudo vem
inserido dentro de sistemas de energias e de relações. Sistema significa um
conjunto articulado de inter-retro-relacionamentos entre partes constituindo um
todo orgânico. Ele é mais do que as próprias partes, um sistema dinâmico sempre
buscando seu equilíbrio e se auto-regulando permanentemente. Todo sistema
apresenta essas duas facetas: por um lado, é fechado e, por outro, aberto.
É fechado porque constitui
uma realidade consistente, com sua relativa autonomia, dotado de uma lógica
interna pela qual se auto-organiza e se auto-regula. É a vigência da
dimensão-galinha.
É aberto porque se
dimensiona para fora. Constituindo uma teia de interdependência com outros
seres e com o meio circundante. Dando e recebendo. Trocando informações no seio
de uma imensa solidariedade ecológica, terrenal e cósmica. Tudo está ligado a
tudo. É a presença da dimensão-águia.
A menor das partículas
elementares, o top-quark, o
conglomerado galáctico da Virgem que engloba mil outras galáxias, Robinson
Crusoé* solitário em sua ilha, um habitante de uma grande cidade imerso na
multidão, todos estão enredados uns nos outros, pelos outros, com os outros e
para os outros. Constituem o incomensurável tecido terrenal e cósmico. Aberto: em cosmogênese*, em expansão e
em evolução (águia). Fechado, porque
formado por corpos celestes relativamente autônomos como estrelas, nosso sol e
planetas, nossa Terra, com seus diferentes povos e suas múltiplas religiões,
com pessoas singulares em suas histórias próprias (a galinha).
4. O desafio
maior: fazer conviver a águia com a galinha
Fazer conviver a águia e a
galinha dentro de cada um de nós: eis a questão. Cumpre buscar o caminho do
meio ao dar a cada uma a sua importância. Mas cuidado! Sem jamais dissociá-las.
Então emerge o arquétipo* da síntese e da totalidade dinâmica, tão buscado pelo
coração humano.
Ai de nós, se nos
contentarmos em ser somente galinhas, se permitirmos que nos reduzam a simples
galinhas: encerrados em nosso pequeno mundo, de interesses feitos e de parcos
desejos, com um horizonte que não vai além da cerca mais próxima. Não disse o
poeta Fernando Pessoa*: "eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho de
minha altura"?
Somos galinhas, seres
concretos e históricos. Mas jamais devemos esquecer nossa abertura infinita,
nossa paixão indomável, nosso projeto infinito: nossa dimensão-águia.
Ai de nós, se pretendermos
ser apenas águias que voam nas alturas, que enfrentam as tempestades e têm como
horizonte o sol e o infinito do universo. Acabaremos morrendo de fome. A águia,
por mais que voe nas alturas, é obrigada a descer ao chão para se alimentar,
caçar um coelho, uma preguiça ou qualquer outro animal. Somos águias. Mas
devemos reconhecer nosso enraizamento numa história concreta, numa biografia
irredutível com suas limitações e contradições: nossa dimensão-galinha.
Sejamos galinhas e águias:
realistas e utópicos, enraizados no concreto e abertos ao possível ainda não
ensaiado, andando no vale mas tendo os olhos nas montanhas. Recordemos a lição
dos antigos: se não buscarmos o impossível (a águia) jamais conseguiremos o
possível (a galinha).
5. A hora e a
vez da águia
Momentos há, em que se impõe
articular as relações e realizar a síntese a partir da realidade da águia.
Outros, a partir da realidade da galinha.
O que determina ser mais
galinha ou mais águia? Certamente, não a veleidade de cada um ou o bel-prazer
do momento.
Originalmente, cada ser
humano tem uma estrutura básica que se manifesta mais como águia em alguns,
mais como galinha em outros. Cada um precisa escutar essa natureza interior,
captar a águia que se anuncia ou a galinha que emerge. Após escutá-Ias, importa
usar a razão para ver claro e o coração para decidir com inteireza. Somente
assim se conquistará a promessa de um equilíbrio dinâmico.
Num segundo momento, faz-se
mister escutar os desafios da realidade, desafios que afetam cada pessoa. Eles
cobram opções e decisões que marcam biografias e definem destinos. Se a pessoa
não obedecer ao chamado do real, não será fiel ao tempo, nem a ela mesma. E
perderá a chance de criar um centro fecundo, convergência das duas escutas: da
natureza exterior e da natureza interior.
Qual a maior exigência, no
momento atual da humanidade e do nosso planeta, que devemos sem falta captar?
Das duas, qual deveria ser mais evocada: a águia ou a galinha? Ousamos
responder com veemência: a águia. E seríamos capazes de repetir ainda uma vez:
a águia.
Explicaremos abaixo as
razões de nossa contundência.
Assistimos ao esforço
fantástico dos monopolizadores do ter, do saber e do poder para nos reduzir a
simples galinhas. Para nos manter somente nos limites estritos do galinheiro e
do terreiro. Para nos subordinar aos seus interesses. Eles são os principais
responsáveis pelas ameaças de devastação e de autodestruição que pesam sobre a
Terra e sobre toda a humanidade. Para continuar a usufruir dos privilégios
usurpados, se fazem surdos ao clamor dos milhões e milhões de sofredores de
todo o mundo e surdos ao grito lancinante da Terra. Atrevem-se a sufocar nossa
águia interior, águia que nos impulsiona a gritar, a protestar, a resistir e a
buscar caminhos de libertação.
Eis aí o grande desafio:
salvaguardar a águia, sua sagrada significação para o destino humano, de
fazer-nos voar rumo ao espaço aberto.
Não aceitamos permanecer
somente na dimensão-galinha, obedientes aos mandos dos que nos querem submeter
e controlar. Rejeitamos o comodismo, o conformismo, o pragmatismo* porque
significam formas de fuga aos desafios atuais. Repelimos veementemente o
pretenso realismo histórico* daqueles que apenas reproduzem o paradigma*
civilizacional da dominação, causador de tantos sofrimentos e lágrimas à
maioria da humanidade, hoje empobrecida e excluída. Porque simplesmente
prolonga e agrava a crise atual, ao invés de enfrentá-la com alternativas mais
esperançadoras de vida e de sustentabilidade para os humanos e para a Terra.
Este cenário dramático
denuncia a ilimitada voracidade desse paradigma de tudo controlar e de tudo
submeter. Está colocando em xeque o futuro de nosso planeta Terra. Este corre o
risco de um infarto ecológico de dimensões globais. Se ele vier a ocorrer,
poderemos conhecer o caminho dos dinossauros há 67 milhões de anos: a
devastação e a destruição.
É a hora e a vez da águia.
Despertemo-la. Ela está se agitando nas mentes e nos corações de muitos. Não
só. Ela anima a história e penetra na própria realidade íntima de cada ser
humano.
Uma águia nunca voa só. Vive
e voa sempre em pares. Importa aqui recordar a lição de um mestre do Espírito.
O ser humano-águia é como um anjo que caiu de seu mundo angelical. Ao cair,
perdeu uma de suas asas. Com uma só asa não pode mais voar. Para voar tem de
abraçar-se a outro anjo que também caiu e perdeu uma asa. Em sua infelicidade, os
anjos caídos mostram-se solidários. Percebem que podem ajudar-se mutuamente.
Para isso, devem se abraçar e completar suas asas. E só assim, abraçados e
juntos, com a asa de um e de outro, podem voar. Voar alto rumo ao infinito do
desejo.
Sem solidariedade, sem
compaixão e sem sinergia*, ninguém recupera as asas da águia ferida que carrega
dentro de si. Um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte. Porque
a união faz a força.
Uma asa mais uma asa não são
duas asas, mas uma águia inteira que pode voar, ganhar altura e recuperar sua
integridade e sua libertação.
6 – Libertar a águia em nós
O midraxe-hagadá* da águia e da galinha e as reflexões que fizemos
anteriormente suscitam questões que demandam esclarecimentos. Elas pertencem à
agenda permanente do ser humano.
Por que a águia caiu de seu
ninho e ficou ferida? Por que foi reduzida à condição de galinha? Por que nós
humanos somos seres instáveis e decadentes?
Foi uma graça a águia ter
encontrado um bom samaritano que a ajudou a recuperar os sentidos e voltar a
ser plenamente sadia. Qual a importância da solidariedade, da compaixão e da
sinergia* na construção do humano?
Foi indispensável que alguém
despertasse a galinha-águia para reacender-lhe o fogo interior de sua
identidade. Qual a função da conscientização no processo de individuação*?
O sol despertou na águia sua
identidade. Qual a importância da irrupção do Sol e da experiência do Numinoso*
para a pessoa?
A águia, plenamente águia,
voou tão alto que se fundiu com o azul do firmamento. Qual o quadro final do
projeto humano? Qual o termo de seu incansável buscar?
1.
Heróis e heroínas de suas
próprias sagas
A história da águia e da
galinha nos evoca o processo de personalização* pelo qual todo ser humano
passa. Não recebemos a existência pronta. Devemos construí-la progressivamente.
Há uma larga tradição transcultural que representa a caminhada do ser humano,
homem e mulher, como uma viagem e uma aventura. na direção da própria
identidade.
Como em qualquer jornada há
riscos: incompreensões dos familiares, traições dos amigos, frustrações
profissionais e fracassos no amor. Mas também conquistas: a descoberta da
amizade, o florescimento do amor, a felicidade de experiências produtivas, o
lento amadurecimento e o despontar da sabedoria da vida.
Nas viagens enfrentamos
encruzilhadas. Que direção tomar? Somos obrigados a decidir em conformidade com
nossos valores e com os grandes sonhos que alimentamos. Nas opções emerge o que
somos por dentro: heróis e heroínas, fiéis até o sacrifício pessoal. Ou
indecisos, covardes, vítimas de nossa própria omissão.
Ao superar obstáculos e ao
encetar transformações necessárias para a conquista de seus ideais, cada um é
provocado a ser herói/heroína de si mesmo e de sua própria saga*.
Herói/heroína aqui tem pouco
a ver com os estereótipos tradicionais que reduzem o herói/heroína ao
combatente de guerra e aos feitos corajosos executados nela. Menos ainda, com
os heróis/heroínas das novelas da literatura e da televisão. Na nossa reflexão,
herói/heroína é cada pessoa que assume a vida assim como se apresenta: com caos
e cosmos, com ordem e desordem, com realizações e frustrações, com um buraco
interior do tamanho de Deus.
Herói/heroína constitui
também um arquétipo* do inconsciente coletivo, presente e atuante dentro de
cada um de nós. Numa compreensão psicanalítica, arquétipos são grandes
símbolos, paradigmas*, padrões de comportamento acumulados no nosso
inconsciente pessoal e coletivo, desde os primeiros albores do espírito. Eles
nos orientam na forma como experimentamos as realidades vividas e sentidas.
Os arquétipos são sempre
ambivalentes: positivos e negativos. Vêm carregados de emoção e de fascínio.
Por isso alguns os representam como deuses e deusas, guias interiores. Dentro
de nós falam mediante sonhos, fantasias e representações mentais. Fora de nós,
através de mitos, histórias, expressões simbólicas nas artes, na literatura e
principalmente nas religiões.
Escutar os arquétipos*
significa dar atenção à voz de nossa interioridade e criar espaço para que ela
se manifeste. Ela nos obriga a ser críticos e vigilantes em face das
contradições e dos excessos dos arquétipos, que podem irromper avassaladores.
O que efetivamente conta não
são as coisas que nos acontecem. Mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas.
Nessa reação irrompe a força irradiadora dos arquétipos. O decisivo são os
sentimentos, os valores e as visões que tivermos elaborado em confronto com as
venturas e desventuras da vida e o crescimento que elas nos proporcionaram. O
arquétipo do herói/heroína nos ajuda a ser heróis e heroínas de nossa própria
vida e jornada.
Nesse caminhar, o
herói/heroína concreto transcende os limites biográficos. Faz uma experiência
universal que o religa aos demais homens e mulheres. Deixa emergirem, então, visões,
símbolos e valores universalmente válidos que brotam das profundidades do
mistério da vida e dos desejos mais íntimos.
O herói/heroína percorre
certas etapas necessárias à construção de sua individuação*. São como eixos
existenciais por onde corre e se define a vida. Trata-se de situações humanas
que representam desafios, com os quais a pessoa aprende, acumula experiências,
integra perspectivas, torna-se madura e, talvez, sábia.
Vamos descrever sucintamente
seis situações existenciais que concretizam o arquétipo do herói/heroína. A
águia passou por todas elas.
Cada pessoa humana se
confronta com o desamparo existencial e com o sentimento de perda.
Perda de um ente querido, de
uma relação afetiva, de uma casa que se incendiou, de um posto de trabalho.
Sente necessidade de uma mão que o levante e de um ombro no qual se possa
apoiar com confiança.
É a situação da águia caída
e ferida. Ela está entregue aos samaritanos eventuais que passam pela estrada.
Muitos simplesmente olham, dão de ombros e seguem seu caminho. Estão
preocupados com mil tarefas. Presumem que é mais importante cumpri-las do que
cuidar de um desamparado no caminho. Há os que se esquecem de si, de seus
afazeres e se enchem de compaixão. Colocam-se na condição do outro. Sentem o
seu desamparo e se solidarizam com ele. Salvam a águia ferida.
Em toda situação de abandono
está presente uma tentação e uma chance. A tentação consiste nisto: a pessoa
não enfrenta o desamparo. Ou culpa sempre os pais, os irmãos e outros por seus
fracassos. Ou fica esperando a solução, vinda da política, do Estado, da
loteria, dos outros e de Deus. Essa atitude esconde sua omissão, sua falta de
iniciativa e sua fuga da responsabilidade.
Mas há a chance de a pessoa
aceitar o desafio do desamparo e de crescer com ele. Começa por
desdramatizá-lo, pois pertence à finitude da vida humana. Não somos onipotentes
nem demos a nós mesmos a existência. Vivemos uma pobreza essencial. Dependemos
objetivamente dos outros.
Essa situação de dependência
não nos humilha porque caracteriza todos os seres do universo. Já o dissemos:
estamos todos envolvidos numa teia de inter-retro-relações. Esta situação,
portanto, deve ser assumida sem amargura.
Por outra parte, a pobreza
essencial e a interdependência nos abrem para a solidariedade universal. Sendo
dependentes, ajudamo-nos uns aos outros na construção coletiva da vida. Ao
invés de culpar os outros por nosso desamparo ou de nos omitir de batalhar
contra ele, assumimos uma atitude positiva de empenho e de luta.
Por isso não devemos pedir a
Deus que nos liberte do abandono. Há que suplicar-lhe forças para enfrentá-lo.
Neste enfrentamento surge a figura do herói/heroína: do agüente, da resistência e
da coragem.
Como sair do abandono? Que
estratégias usar para continuar caminhando? Na resposta a estas questões surge
o segundo arquétipo* de herói/ heroína: o caminhante
ou o peregrino.
No processo de nossa vida,
lentamente vamos conquistando nosso ser, nosso lugar na sociedade, nossa
profissão, nossos objetivos de curto e de longo prazo. É uma árdua caminhada.
Temos de desenvolver nossos próprios recursos para sermos autônomos na jornada
e não onerarmos os demais.
Tal diligência demanda
tempo, paciência e autoconfiança. A águia ferida teve de esperar até recuperar
lentamente todos os seus sentidos. Entendemos então a verdade cantada pelo
poeta: "Caminhante, não há caminho. Faz-se caminho ao caminhar". É a
sorte do herói/heroína peregrino.
Viver é lutar. O poeta
inspirado ensinava: "A vida é um combate, que os fracos abate, que os fortes
e os bravos só quer exaltar". Eis a figura do terceiro tipo de
herói/heroína: o lutador. Luta
defendendo-se. Luta contra os obstáculos que se antolham na caminhada de sua
realização. Luta no plasmar da vida e do mundo conforme seus sonhos e suas
metas. Nada do que realmente vale se alcança sem esforço e sem fatigante
trabalho.
A águia, para resgatar sua
identidade, teve que se auto-superar. Vencer o medo inicial. Abrir seus olhos
ao Sol. Testar as asas abertas. E arriscar o vôo rumo às alturas. O herói/heroína
lutador sabe quantas lutas tem demandado historicamente a dignidade humana e a
vida autônoma, justa e plena.
Toda luta exige doação,
capacidade de renúncia e de sacrifício em favor dos outros e dos sonhos que se
quer concretizar. Eis que aparece o quarto arquétipo* do herói/heroína: o mártir. O mártir não ama a dor pela dor.
Seria dolorismo. Como se diz no martírio de S. Martinho de Tours no século IV:
"ele não temia morrer nem recusava viver". O mártir aceita a dor, o
sofrimento e eventualmente a perseguição e a própria morte como preço apagar
por causas e bens para os quais vale a pena jogar a vida. Sofrer assim é digno.
O mártir, que pode ser cada um de nós, crê na lógica da semente: se não
conhecer o escuro da terra, se não aceitar morrer, não viverá nem dará fruto.
Quem quer conservar a vida, perdê-Ia-á. Quem ousar perdê‑Ia, ganhá-Ia-á,
enriquecida, de volta. Portanto, é morrendo que se vive mais, é entregando a
vida terrenal que se obtém a vida celestial.
Há ainda o quinto arquétipo
do herói/heroína: o sábio. Sábio tem
a ver com saber e com sabor. Não com qualquer saber. Mas com saber que tem
sabor. O saber tem sabor quando resulta de experiências, de sofrimentos, de
observações dos vaivéns da vida. O sábio vê para além das aparências. Não se deixa
iludir por elas. Por isso não tem ilusões. Tem intuições certeiras. Vê dentro
das coisas. Capta a verdade profunda que se entrega somente aos atentos. A
verdade não é feita de frases corretas, mas de visões que sintonizam o coração
com o desejo e o desejo com a realidade. Só quem se abre à realidade e nutre
profunda simpatia para com ela tem acesso à verdade. Por isso, só conhecemos
verdadeiramente quando amamos. Quando nos fazemos um com a realidade.
O sábio aprende a ver as
coisas do ponto de vista do Absoluto. Esse ponto de vista liberta dos
enrijecimentos conceptuais e da sedução das ideologias. Consegue ver todos os
caminhos como setas que apontam para a meta suprema. Nas muitas religiões, por
exemplo, entrevê a religação de tudo com tudo e com a Fonte donde todos os
seres jorram. Em conseqüência dessa atitude, o sábio irradia gravidade e
serenidade. Inspira confiança. Desperta, nos que se encontram à sua volta, o
fogo interior do entusiasmo sagrado pela verdade, pela transparência e pelo
despojamento.
O arquétipo* do sábio nos
conduz à última expressão do herói/heroína arquétipo: o mago. Refletimos já sobre o mago do Tarô*. Vimos como está
conectado com as energias secretas do universo. Como transforma o mundo
convencional em mundo mágico. Como transfigura os fracassos em sabedoria: Como
recompõe a imagem quebrada em mil pedaços.
O mago consegue criar uma
totalidade final sem deixar sobras. Uma sinfonia que recolhe em si todas as
disfonias. O mago nos introduz em estados de consciência integradores que nos
permitem vislumbrar, a partir de um centro de irradiação e de amor, a unidade
de todas as coisas. Ele alarga as dimensões de nosso eu consciente na direção
do eu profundo. A partir do eu profundo nos faz mergulhar no oceano divino que
nos habita, Deus. Em derradeira instância, nos diz o mago, nós somos um com Deus. A alma amada se vê "no
Amado transformada".
N o processo de resgate e de
realização de sua identidade, a águia viveu todas as estações desta jornada.
Realizou plenamente o arquétipo* herói/heroína: do agüente, do caminhante, do
lutador, do mártir, do sábio e do mago. No termo do caminho encontrou o céu, o
lar e a pátria da identidade.
2. O paraíso e
a queda acontecem hoje
Por mais sucesso que tenha,
o herói/heroína se confronta freqüentemente com uma ameaça: com a queda, com o
ferimento, eventualmente até com a morte. O herói/heroína é o que é, exatamente
porque aprende a trabalhar essas anti‑realidades. Incorpora-as e assim as
supera criativamente.
Vejamos agora com certo
detalhe a possibilidade da queda e o fato da própria queda. A história da águia
nos suscita esta questão. Por que caímos? Por que tanto sofrimento no resgate e
na realização de nosso próprio ser?
Se tivermos uma perspectiva
mais global da realidade cósmica, terrenal e humana, poderemos lançar alguma
luz sobre esta intrigante questão. Há uma constatação inegável, resultado das
investigações mais seguras sobre o universo: ele está em expansão e em
evolução. Dizer que está em evolução implica afirmar que o universo passa de
formas simples para formas mais complexas, de situações de caos (desordem) para
situações de cosmos (ordem).
O processo evolucionário
supõe um universo perfectível, aberto e ainda não acabado. A verdadeira
natureza das coisas ainda não se realizou
totalmente. Vai se concretizando na medida em que o processo avança. Só no
termo da história cósmica e humana e não no seu começo valem as palavras das
Escrituras*: "E Deus viu que tudo era bom". Até lá as coisas não são
totalmente boas. Podem sempre melhorar. Vale dizer, passam de situações menos
boas para situações melhores.
A seguinte seqüência,
ordem-desordem-interação-nova ordem, é a característica mais perceptível dos
seres vivos. Num organismo vivo partes se desagregam, outras se regeneram,
estoutras renascem.
Até o nível humano, esta
situação não comportava maiores dificuldades. Estas, entretanto, surgiram
quando irrompeu a consciência humana. Ela se caracteriza pela capacidade de
fazer uma imagem de totalidade do real e por sentir-se habitada por um desejo
infinito, como consideramos no capítulo anterior.
A consciência pode entrever
o termo do processo evolucionário. Nos sonhos e nas projeções do imaginário,
antevê a perfeição e a plena realização das potencialidades da criação. Sonha
com o mergulho humano no oceano insondável do Ser. Tem a capacidade de saltar
por cima do tempo e do processo em curso e de se colocar na culminância
derradeira da evolução:
Em razão desta capacidade da
consciência, deriva-se um drama: como combinar a perfeição final com o estágio
imperfeito atual ? Por que temos que percorrer, pacientemente, este longo
percurso até chegar à perfeição terminal ?
O drama se agrava em face da
realidade da entropia*, do desgaste das energias, do envelhecimento natural e
da inevitabilidade da morte. O dia ensolarado caminha lentamente para a noite
escura. O ridente verdor da primavera desliza preguiçosamente para o vermelho
alegre do verão. Para o amarelo sereno do outono. E para. o cinzento desbotado
do inverno. Todos os seres vivos nascem, crescem, maduram, envelhecem e morrem.
Nenhuma força poderá deter esse curso irrefragável das coisas.
Considerando os já 15
bilhões de anos do universo e dos já 3,5 bilhões dos sistemas vivos,
verificamos que a morte não é um fim derradeiro. Ela representa um momento de
transformação dentro de um processo maior. Uma passagem alquímica* para um
estágio mais alto e mais complexo. A morte não nega a vida. Ela é uma invenção
inteligente da própria vida para possibilitar a si mesma uma religação maior com
a totalidade do universo.
Entretanto, não há apenas a
morte. Há também a experiência da queda. Vivíamos uma situação segura, com
certo número de certezas que nos causavam tranqüilidade. Por uma razão
qualquer, as coisas começaram a entrar em crise, a perder suas estrelas-guias,
a se decompor. De repente, decaímos desta situação. Vivenciamos a experiência
dolorosa da queda e da expulsão do paraíso. A experiência de queda e de perda
atravessa toda a nossa vida. A vida pessoal e coletiva é feita de altos e baixos,
de ascensões e quedas.
O capítulo terceiro do
Gênesis* relata a queda de Adão e Eva, da humanidade enquanto homem e mulher,
com a subseqüente expulsão do paraíso terrenal. Tal acontecimento é
paradigmático* da condição humana. Ele não se situa no passado remoto da
humanidade, mas no seu presente, no momento atual. A cada momento caímos de
nossos ideais na mais crua realidade. A todo instante nos sentimos exilados e
expulsos deste mundo no qual não há lugar suficiente para nossos desejos mais
profundos de amor, de liberdade, de compreensão, de compaixão e de paz.
Entretanto, somos livres. A
liberdade nos foi dada para moldar a vida e modificar o destino. Na liberdade
podemos acolher como rejeitar o paradoxo* de paraíso e queda, de águia e
galinha e de vida e morte. Podemos assumir a queda como desafio para nos
auto-superar. Para nos tornar herói/heroína e assim crescer. Como podemos
também ficar tão-somente na lamúria, na fuga ilusória e no encaramujamento
sobre nós mesmos.
Na liberdade podemos jovialmente
hospedar a morte ou tentar, ilusoriamente, fugir dela. Pouco importa. Ela é
soberana. Vem e sobrevém infalivelmente. Não se introduz no termo da vida.
Instala-se já no seu começo. Lentamente vamos morrendo, minuto a minuto, em
prestações, até acabar de morrer.
Dar primazia à vida,
olvidando sua mortalidade, é cair pesadamente nos braços da morte. Acolher, com
serenidade, a morte porque pertence à vida, implica dar primazia à vida e viver
uma inexprimível liberdade. É viver mais e melhor. É ressuscitar.
A história da jovem águia
que caiu do ninho e se feriu perigosamente nos lembra à condição humana
decaída. Sempre estamos sob a ameaça de cair do paraíso em que nos encontramos.
Esta situação de decadência faz nascer um permanente anseio de resgate e de
libertação.
3. A força
regeneradora do amor incondicional
Graças a Deus, a jovem águia
foi socorrida por um anônimo criador de cabras. Como bom samaritano, deteve-se
em seu caminho. Esqueceu-se de seus afazeres. E deixou-se comover pelo ninho
estraçalhado. Apiedou-se da águia que parecia morta, levando-a cuidadosamente
para casa. Grande compaixão mostrou também o empalhador de aves. Ao perceber
que a jovem águia ainda vivia, decidiu piedosamente não sacrificá-la e cuidar
dela com carinho. Nesses gestos deparamos com a energia mais fundamental que
move todo o universo: o amor incondicional.
O amor incondicional é
aquele amor que, como a palavra expressa, não coloca nenhuma condição para ser
vivido. Nem condição de parentesco, de raça, de religião, de ideologia e de
trabalho. Ama por amar. Entrega-se à energia universal que cria relações, gera
laços, funda comunhão. Vai ao outro e repousa no outro assim como ele é. Sem
intenção de retorno e de cobrança.
O amor incondicional possui
características maternas, tem compaixão por quem fracassou. Recolhe o que se
perdeu. E tem misericórdia por quem pecou. Nem o inimigo é deixado de fora.
Tudo é inserido, abraçado e amado desinteressadamente.
Esse amor incondicional é
profundamente terapêutico: fortalece quem é assim amado, pois o acompanha e
envolve em sua queda, impedindo
que esta seja completa e
irremissível. Não há .quem resista à força do amor incondicional. Por causa
dele tudo é resgatável. Ele rompe sepulturas e transforma a morte em
ressurreição.
O amor incondicional põe em
movimento um imenso processo de libertação de:
de carências, de opressões e de limitações de toda ordem. Resgata o sistema
da vida em suas inter-retro-relações. Por isso, a águia, na força do amor
incondicional do empalhador de aves, recuperou os sentidos, os ouvidos, a voz,
as asas, os movimentos, os olhos e, por fim, a capacidade de voar.
Esse amor libertador funda o
dinamismo que pervade todo o universo e cada ser. No universo todos os seres
existem e vivem uns pelos outros, com os outros, nos outros e para os outros.
Ninguém está fora desta relação includente. Mais fundamental que o princípio da
sobrevivência do mais forte (Darwin*), é o da solidariedade-amor de todos para
com todos (Bohr*). É esse amor-solidariedade que constitui a grande comunidade
cósmica, terrenal e humana. É ele que dá origem também ao princípio da
reciprocidade-complementaridade. Um ajuda reciprocamente o outro a existir e a
se desenvolver. Todos se complementam e crescem juntos: as espécies, os
ecossistemas e o inteiro universo.
O amor incondicional crê nas
virtualidades latentes em cada ser. Nunca desespera na confiança de que a
própria natureza revele sua energia regeneradora, de libertação de. Sabe por intuição que sempre sobra
uma chama a ser alimentada, uma palavra a ser ouvida e um sinal de esperança a
ser interpretado. Todos os sons, por mais destoantes, entram na imensa sinfonia
universal.
Por outra parte, o
entrelaçamento de todos com todos revela nossa profunda indigência e, ao mesmo
tempo, nossa insuspeitável riqueza. Precisamos dos outros para ser e para nos
libertar. Paulo Freire nos deixou este legado: "Ninguém se liberta
sozinho; libertamo-nos sempre juntos". Temos uma indigência fundamental
que nos faz . esmoleres uns dos outros. De outro lado, somos portadores de uma
riqueza inesgotável que nos faz doadores uns dos outros. Temos algo a dar e a
contribuir que somente nós podemos oferecer ao crescimento do todo.
Se negarmos esta
contribuição, restará um vazio que ninguém preencherá, frustrando o inteiro
universo. Dom Helder Câmara, o profeta dos pobres, não cansava de repetir em
suas peregrinações pelo mundo: "Ninguém é tão rico que não possa receber,
como ninguém é tão pobre que não possa dar".
4. A importância das figuras exemplares
Embora completa em seu
corpo, com os olhos recuperados e os sentidos resgatados, a águia não era ainda
totalmente águia. Vivia entre as galinhas. À força de conviver com elas,
fizera-se também galinha. A natureza singular da águia se encontrava sepultada
dentro da galinha.
Onde estaria seu coração, a
essência mais íntima de toda águia? Uma águia jamais será uma galinha, mesmo
que seja a mais extraordinária do mundo. Há nela um fogo interior que cinza
alguma pode apagar. É o seu ser de águia. Seu chamado às alturas. O sol que
habita seus olhos.
Não basta apenas libertar-se
de. A águia precisa também
libertar-se para: para a sua própria
identidade e para a realização de suas potencialidades. Nesses momentos
cruciais aparecem os mestres espirituais e as figuras exemplares. Eles têm o
condão de evocar, provocar e convocar a natureza essencial adormecida.
A águia-galinha foi
provocada, certa feita, por um par de águias brasileiras que sobrevoou o
terreiro onde ciscavam os pintainhos. Ao vê-las voando, algo se acendeu dentro
dela. Deu-se conta de que podia, e também devia, voar. Sentiu-se chamada a voar
em céu aberto, a romper a estreiteza do galinheiro. Sim, uma sutil corda
interior foi tocada. Uma vez tocada, dela sairá uma nota musical que nunca mais
deixará de ressoar, até se transformar numa belíssima melodia.
O empalhador logo se deu
conta de que um novo estado de percepção irrompera na águia, confirmado também
pelo amigo naturalista*. Fez testes com ela para reforçar-lhe o herói/heroína
interior. Falou-lhe ao ouvido. Lançou-a do alto da casa. Levou-a ao topo da
montanha. Tentou ser parteiro de sua natureza de águia.
O casal de águias
brasileiras suscitara a possibilidade de a águia-galinha resgatar sua
identidade de águia. De libertar-se para o
seu centro, para a sua natureza
essencial de águia. Seria a grande revolução alquímica*, necessária para a
experiência de plenitude.
Nesta fase avultam em
importância os mestres, os guias espirituais e as figuras exemplares. Sua
função é ajudar a identificar a verdadeira natureza. Não só com palavras nem
apenas com conceitos. Mas mediante sua própria vida e seu modo de ser-agir.
Os mestres viveram as várias
figuras do herói/heroína interior e realizaram seu arquétipo* fundamental com
tal profundidade que eles mesmos se tornaram arquetípicos e simbólicos. Uma vez
transformados em símbolos e em arquétipos* mergulham no inconsciente coletivo.
Fazem-se referências modelares para toda uma caminhada humana. Concretizam
ideais sonhados e buscados por tantos.
Essas figuras pertencem ao
cotidiano da vida familiar e social. São pais, mães, avós, irmãos e irmãs
modelares, mestres-escola, profissionais das várias áreas; uma dona-de-casa e
mãe no seu anonimato e permanente cuidado amoroso; um carpinteiro que domina a
madeira como se fora massa; um pintor que capta genialmente as nuanças da luz;
um advogado perpicaz e incorruptível; um artista notável por sua criatividade e
ao mesmo tempo por sua sensatez; um catador de lixo que se mostra profeta da
ecologia*, possibilitando a reciclagem e preservando a casa comum, do lixo
humano excessivo. Todos eles nos ajudam a viver nosso próprio chamado e a ouvir
atentamente nossa natureza essencial.
Mas há também as grandes
figuras exemplares de cada região, de cada nação, da própria humanidade. Esses
são legados preciosos da consciência coletiva que impregnam benfazejamente a
atmosfera humana. Animando, curando e abrindo novas possibilidades ainda não
ensaiadas.
Quem não se deixa fascinar
pela figura de Jesus de Nazaré? Ele aliava, num só movimento, uma paixão
amorosa e infinita por Deus e uma paixão ardente e libertadora pelos pobres.
Sabia conjugar o universal com o particular. Por isso, unia Reino – a revolução
absoluta na criação – com o cuidado pela
fome das multidões. Tinha integrada dentro de si a dimensão feminina que o
tornava sensível à exclusão em que viviam as mulheres de seu tempo.
Comprovam-no a presença delas em momentos fortes e seus milagres, especialmente
os de cura, que libertavam da doença física e para a reintegração na sociedade.
Duro contra a religião das aparências dos fariseus, era ao mesmo tempo
compassivo com a pecadora pública Maria Madalena ou com o cobrador de impostos
Zaqueu. Humano assim, nos apraz repetir, só Deus mesmo, na sua face materna e
paterna, encarnado em nossa humanidade. Ele se transformou num dos mais
poderosos arquétipos* do Ocidente e hoje da alma humana. Arquétipo do amor
incondicional e da proximidade de Deus.
Quem não se encanta com
afigura de s. Francisco de Assis*, o "primeiro depois do Único", o último
cristão radical? Nele se encontrou, numa síntese inspiradora, a ternura e o
vigor. Ternura para com todos os seres, abraçados como irmãos e irmãs. Ternura
para com Clara, sua companheira na cumplicidade em sua paixão pelos últimos e
por Deus. Vigor no seu projeto pessoal de viver a loucura do Evangelho, a
despeito da Igreja imperial e opulenta dos príncipes e dos Papas. Ele surge
como um dos mais poderosos arquétipos* da totalidade humana. Harmoniza em sua
vida as dimensões do mundo físico, do mundo psíquico e do mundo espiritual.
Celebra assim o esponsório feliz da mãe e irmã Terra com o senhor e irmão Sol.
Quem revela hoje mais
características messiânicas* do que o Dalai Lama*? Vivendo no exílio, fortalece
a resistência de seu povo tibetano,
submetido à dominação chinesa. Prega em todos os foros mundiais a paz mediante
o diálogo e a colaboração de todos os povos. Mostrou com seu exemplo e palavra
a importância da espiritualidade e da meditação para o desenvolvimento
harmônico das pessoas. Favoreceu a compreensão de todas as tradições
espirituais e religiosas como caminhos diferentes e verdadeiros para se chegar
ao mesmo Mistério Divino, à Suprema Realidade.
Quem não se enternece com a
figura do Mahatma Gandhi*, frágil e forte? Soube fazer da verdade transparente
uma força mobilizadora da política e da não‑violência ativa, uma energia
irresistível de transformação social. Ninguém melhor do que ele entendeu e
viveu a política como gesto amoroso para com o povo. Ele se transfigurou num
símbolo vivo da dimensão solar da vida humana, da liberdade interior, da
espiritualidade como dimensão pública e revolucionária.
Não produz sentimentos de
veneração a figura da Madre Teresa de Calcutá*? É um testemunho vivo de
compaixão pelos moribundos das ruas, proporcionando-lhes a dignidade de morrer
como humanos no calor da comunidade solidária. Ela concretiza o arquétipo* da
misericórdia, da sacralidade da vida e da grande mãe protetora e consoladora.
E assim poderíamos elencar
um rosário de nomes referenciais como Edith Stein*, Martin Luther King*, Che
Guevara*, Rigoberta Menchú*, Mãe Menininha do Gantois* , Marçal, cacique
guarani assassinado, Chico Mendes*, entre outros e outras.
Os mestres referenciais
despertam em nós virtualidades latentes. Ajudam-nos a evitar enganos e erros.
Sustentam a esperança de que sempre vale a pena seguir lutando. Impedem que o
desânimo tome conta de nossa vida. Alimentam permanentemente com o óleo da
confiança, da solidariedade, do perdão e do enternecimento a lamparina sagrada
que arde em nós. Assim sempre haverá luz em nosso caminho. A águia que somos
não se mediocrizará e erguerá vôo sempre de novo.
Identifiquemos tais mestres
em nossa vida e em nossa cultura! Aprendamos a venerá-Ios e a segui-Ios! Com a
luz que deles jorra, será menos oneroso o caminho rumo ao nosso próprio
coração.
Mas a missão principal das
figuras exemplares é ensinar-nos permanentemente a cuidar do Ser em todas as
suas dimensões, corporal, mental e espiritual. Só então seremos plenamente
humanos.
A cultura dominante separou
corpo, mente e espírito. Dilacerou o ser humano em mil fragmentos. Sobre cada
fragmento construiu um saber especializado.
Assim, com respeito ao
corpo, há os que sabem de olhos e só de olhos, só de ouvidos, só de coração, só
de cérebro.
Com referência à mente,
outros sabem do psiquismo só de crianças, só de mulheres, só de casais, só de
neuróticos, só de esquizofrênicos.
Concernente ao espírito
sabem só de religião, só de cristianismo, só de franciscanismo, só de budismo,
só de candomblé, só de oração.
Tais saberes são de grande
proveito, pois nos ajudam a debelar ancestrais inimigos da humanidade, como as
mais diferentes doenças, a superação das distâncias e o encurtamento do tempo.
Revelam-nos a complexidade da alma humana. Desvelam-nos a diversidade dos
caminhos espirituais.
Mas todos eles encerram
certo reducionismo: onde está o ser humano em sua integralidade? Na diferença e
reciprocidade de homem e de mulher? Nos paradoxos* analisados por nós
anteriormente? Perde-se a memória sagrada de sua unidade dinâmica, paradoxal e
sempre aberta a novas sínteses.
Alguém fisicamente doente em
sua cama de hospital sente-se, muitas vezes, mais aliviado com a visita da
netinha querida do que com o remédio receitado. A escuta atenta e afetuosa das
fabulações de um esquizóide ajuda mais que muitas sessões de terapia. O
encontro com uma pessoa espiritual que realmente vivenciou o Sagrado, mesmo
sendo de um caminho religioso diferente, nos ajuda mais na nossa própria busca
do que muita piedade e muita meditação.
Os mestres exemplares nos
recordam a atitude fundamental que devemos ter ,para com a integralidade do ser
humano: o cuidado. O cuidado é tão fundamental que foi visto pelos gregos como
uma divindade. Divindade que acompanha o ser humano por todo o tempo de sua
peregrinação terrestre. Onde há cuidado, aí desabrocha a vida humana,
autenticamente humana. Onde está ausente, aparece a rudeza, o descaso e toda
sorte de ameaças à vida. Importa cultivar o cuidado como precondição essencial
para a vida sob qualquer uma de suas formas.
Cuidado para com o corpo: na alimentação, para que não seja
apenas nutrição, mas comunhão com os elementos, com o ar que respiramos, com a
água que bebemos, com as roupas que vestimos, com as energias que vitalizam
nossa corporalidade.
Cuidado para com a nossa mente, especialmente para com os heróis
e heroínas, deuses e deusas que nos habitam. Eles formam os valores que
orientam nossa vida e aqueles arquétipos* solares e sombrios que plasmam nosso
caminho para o bem ou para o mal.
Cuidado especial para com
aquela energia vulcânica que atormenta e realiza a mente: o desejo. Somos
seres-de-desejo. O desejo possui uma dinâmica ilimitada e infinita. Não
desejamos apenas isso e aqui. Desejamos tudo e o todo. Desejamos o Absoluto. Importa
orientar o desejo para que, ao concretizar-se em mil objetos, não perca o
obscuro e permanente Objeto de sua busca, consciente ou inconsciente: o Ser,
Deus, o acolhedor Útero divino.
Há o risco de o desejo
identificar o Ser com suas manifestações. Passa então a fetichizá-las, na
ilusão de que são absolutas, quando são sempre relativas. Olvida o Ser que se
dá e se retrai em cada manifestação.
Os mestres nos ensinam a
cuidar das relações para com os outros. Cuidamos dos outros porque os
descobrimos como valores em si mesmos, religados à fonte do Ser, habitados por
Deus que os está continuamente gerando como a seus filhos e filhas.
Por fim importa cuidar do espírito. O espírito é aquela dimensão
da consciência pela qual a pessoa se sente ligada ao todo e religada à Fonte
originante. O espírito continuamente projeta visões de totalidade e de unidade.
Cultivar o espírito significa cuidar do Ser, manter viva a memória
bem-aventurada de sua presença em todas as coisas.
Cuidar do espírito é estar
sempre atento e ouvir as mensagens que vêm de todos os lados. As coisas não são
apenas coisas. Elas representam valores que fascinam. As coisas são símbolos de
outra Realidade. Por isso falam e anunciam esta Realidade suprema. Ela não é um
abismo aterrador. Mas um foco irradiador de sentido. Um amor que em tudo
penetra e resplende. Que move o céu e todas as estrelas, como dizia Dante
Alighieri*, o maior poeta da Itália, fundador da atual língua italiana.
Pertence ao espírito poder
rezar e contemplar. Rezar e contemplar significa escutar a Palavra que ecoa em
todas as palavras. Comporta identificar nas relações que entrelaçam todos os
seres do universo aquele Elo unificante e esquecido que tudo unifica, tudo liga
e religa e que faz o cosmos ser cosmos e não caos. Rezar e contemplar implica
colocar-se, silenciosa e imediatamente, diante daquele que é o Princípio, o
Meio e o Fim. Comungar reverentemente com Ele. Mergulhar amorosamente nele.
Este cultivo do espírito –
espiritualidade – pertence à natureza humana. É parte natural do processo de
humanização especialmente na fase adulta da vida. Importa enfatizar: a
espiritualidade é um dado antropológico de base. Não é, como muitos pensam,
monopólio das religiões e dos caminhos. espirituais. Não. É a dimensão profunda
do ser humano. Só num segundo momento é assumido e expresso pelas religiões
institucionais e pelas tradições espirituais dos vários povos. Elas codificam a
experiência espiritual, criam-lhe uma linguagem específica e zelam para que
jamais se apague na memória pessoal e coletiva da humanidade.
Integrar a cura do corpo, a
terapia da mente e o cuidado do espírito constitui a meta da construção do
humano, rico, diverso, paradoxal e harmonioso. Pois é isso que os mestres
viveram e nos testemunham permanentemente.
A águia tornou-se novamente
águia e voou, quando resgatou (libertação de) e potencializou (libertação para)
sua natureza. De onde tirou as energias que a levaram para as alturas?
Eis questão fundamental a
ser respondida. Ela representa o ponto culminante de toda nossa meditação. Ela
se concentra na realidade do Sol.
O Sol representa o
arquétipo* da síntese entre o humano e o divino, entre o ser corporal, mental e
espiritual e entre a águia e a galinha. O Sol, numa palavra, é o Centro vivo e
irradiador da vida humana.
5. O Sol:
experiência do Numinoso e do Centro
Recordemos a importância do
Sol para a natureza da águia. Não foram suficientes os mestres, o empalhador, o
naturalista* e seus esforços para despertar a natureza interior da águia.
Enquanto o Sol não renasceu em seus olhos e, a partir daí, em seu coração, a
águia não pôde voar. Com o Sol dentro de si, sentiu firmeza. Abriu as potentes
asas. Mediu os espaços. E aventurou-se ao vôo libertador.
Qual a importância do Sol na
vida das pessoas ? O sol é o astro-rei de nosso sistema planetário. Mas é
também o grande símbolo transcultural que capitaliza as questões ligadas à
síntese viva. Síntese que deve irradiar luz e calor. E encher de significação a
vida humana.
O Sol possui a função de um
arquétipo* central. Vem associado à ordem e à harmonia de todas as energias
psíquicas. Como o sol atrai em órbita todos os planetas de seu sistema, assim o
arquétipo-Sol sateliza ao seu redor todas as significações. Ele é o Centro vivo
e irradiante de nossa interioridade. E no centro do Centro está a imagem de
Deus, o próprio Deus. O Sol representa por excelência o Numinoso* em nós, que
as religiões afro-brasileiras chamam de axé*.
Todos fazemos a experiência
do Numinoso*. É aquela experiência que nos toma e nos envolve totalmente. Por
isso também possui enorme potencial transformador. A experiência de
enamoramento e de paixão entre duas pessoas que se amam é uma experiência do
Numinoso. A experiência de encontro profundo com alguém, que nos lançou uma luz
no meio de uma crise existencial, representa uma experiência do Numinoso. O
choque vital com alguém cheio de carisma, que irradia por sua palavra
profética, por sua ação corajosa e por sua personalidade tema e ao mesmo tempo
vigorosa, nos comunica uma experiência do Numinoso. A experiência da Presença
do Divino e do Sagrado por detrás de todas as coisas e do universo. Presença
que se sente no fundo dos olhos de uma criança. E dentro de nosso coração: eis,
por excelência, a eclosão do
Numinoso.
O Numinoso não é uma coisa.
Mas uma ressonância das coisas dentro de nós e que, por isso, se fazem
preciosas. Apresentam-se como valores e como símbolos que falam dentro de nossa
profundidade. Porque são símbolos, sempre remetem para além deles, para uma
outra dimensão, para um inefável percebido pela consciência. Inefável que tudo
sustenta e ordena. As coisas, além de continuar a ser o que são, transmutam-se
em realidades simbólicas e sacramentais. Por isso elas, de um lado, nos atraem
e nos fascinam e, de outro, nos enchem de respeito e de veneração. Elas
produzem em nós um novo estado de consciência. Alargam as dimensões de nossa
percepção e do nosso coração.
Esse Numinoso* constitui
nosso Sol interior, nosso Centro irradiador. O Centro é um dado da totalidade
de nossa vida que se impõe por ele mesmo. Ele fala dentro de nós. Ele nos
adverte. Ele nos apóia. É o nosso mestre interior, grande ancião/anciã que
sempre nos acompanha. Ele é indestrutível. É o melhor, o mais sagrado, o mais
sacrossanto e o mais insondável de nós mesmos.
É o nosso Mistério que toca
no Mistério do mundo e no Mistério de Deus.
Pelo fato de irradiar e de
aquecer, este Centro é identificado com o Sol. Os principais místicos
testemunham a presença dessa inefável realidade solar dentro da alma. Santa Teresa
d'Ávila*, a grande mística espanhola do século XVI, escreveu: "o sol resplendente está sempre
dentro da alma e nada pode arrebatar sua magnificência"; ou "ele está
sempre presente para nos dar o ser".
O ser humano pode fechar-se
aos chamados desse Sol e desse Centro. Pode querer negá-lo. Mas jamais poderá
aniquilá-lo. Ele sempre estará aí como uma realidade imanente à alma. Ele
constitui o fundamento da dimensão espiritual do ser humano. É a base
antropológica da espiritualidade.
A vida espiritual possui em
nós o estatuto de uma energia originária. De um instinto com a mesma cidadania
que o instinto sexual, o instinto de saber, o instinto de poder, o instinto de
violar os tabus e o instinto de transcender. Note-se, não se trata de um
instinto qualquer, um entre tantos. Mas de um instinto fundamental, articulador
de todos os demais.
Repitamos, a vida espiritual
traduz um dado antropológico objetivo, preexistente à consciência e
independente de nossa vontade. O ser humano possui naturalmente interioridade.
E essa interioridade é habitada por um Sol e pelo Numinoso*.
Os mestres espirituais e
outros analistas das profundezas da alma humana chamam a esta interioridade e a
este Sol central também de Imago Dei (imagem
de Deus) ou a própria Presença Divina em nós. Os místicos ousam mais e dizem:
Temos Deus dentro de nós. É tão unido a nós que Ele é a nossa própria
profundidade. Somos Deus por participação.
Se assim é, então devemos
reconhecer que nós não adquirimos a vida espiritual. Ao contrário, nós nos descobrimos
radicalmente dentro dela. Podemos abrir-nos mais e mais a ela. Como ensina
Santa Teresa d'Ávila*, podemos predispor nossas moradas interiores a receberem
mais luz. Mas em Deus sempre vivemos. Em Deus nos movemos. Em Deus somos. A Ele
nunca vamos. Dele nunca saímos. Nele sempre nos encontramos.
Ser plenamente humano
comporta vivenciar esta realidade espiritual. Deixar que ressoe dentro de nós,
para sentir que somos habitados pela Energia criadora dos Céus e da Terra, para
que possamos brilhar e voar. Ela nos está gerando a cada momento. Ela nos tira
de seu coração de Mãe e de Pai originários e nos coloca amorosamente no mundo.
O cuidar do Ser se
transforma, então, num amar o Ser. Entrar em comunhão com Ele. Tornar-se um com
Ele. Cuidar do Ser significa continuamente fazer o esforço de passar do Deus
que temos nas espiritualidades, nas religiões e nos discursos institucionais do
sentido, para o Deus que somos na nossa radical profundidade. Lá onde tudo se
encontra, se religa e por isso se faz uno, diverso, convergente e irradiante de
vida.
A águia sentiu imergir
dentro de si esse Sol. Na força de sua irradiação e de seu calor, religou todas
as suas memórias pretéritas. Articulou todas as forças escondidas. Recuperou o
elo perdido do seu passado de águia perfeita. E entrou num novo ser e num novo
estado de consciência. Voou e voou para o alto. Voltou a ser águia. Em
plenitude.
6. O reencontro no grande Útero
O termo da caminhada da
águia é sua penetração no céu. Ela voou até fundir-se com o azul do firmamento.
Qual é a meta derradeira do ser humano? Qual é o seu destino terminal? Não é a
permanência na dualidade e na errância como se caminhasse sem fim numa direção
sempre mais para frente. Sem nunca saber se pode chegar e onde chegar. Ele é um
projeto infinito. Somente a fusão com o Infinito permite a realização do
projeto infinito. E assim fazê-Io descansar.
Há no ser humano um apelo
para a unificação, para a comunhão com todas as coisas e para ser um com elas.
É a nossa inarredável saudade do momento em que estávamos todos juntos, naquele
ponto matemático inimaginavelmente pequeno, antes do big-bang* inicial. Aí éramos energia originária com imensas
virtualidades de relação e de realização. E então houve a explosão. Tudo se
expandiu e tudo interagiu criando as ordens primordiais. Chegamos até as
grandes estreIas. Em seu seio se formaram, em milhões e milhões de anos, todas
as partículas que compõem atualmente o universo e cada um de nós. Num dado
momento, essas grandes estrelas vermelhas explodiram. Seus materiais se
espalharam por todo o espaço cósmico. Nasceram as galáxias, as estrelas de
segunda grandeza, os planetas, os satélites, os primeiros organismos vivos que
evoluíram em complexidade e interiorização até se tomarem autoconscientes em
nós, seres humanos. Nascemos do coração das grandes estrelas. Por isso
existimos para brilhar. Pois carregamos dentro de nós o brilho originário
dessas estrelas.
Esta unidade originária
nunca se perdeu em nós. Ela permanece como memória cósmica de um útero que tudo
acolhe. Ele está na origem e se mostra como saudade bem-aventurada. Está também
no termo da peregrinação e se revela como esperança imorredoura. O Útero
inicial é também o Útero terminal. Deus está no começo, no meio e no fim.
Et tunc erít finís, e então será o fim. Será o fim quando implodirmos e
explodirmos para dentro do Abismo insondável de realização e de bem‑aventurança,
Deus. Então seremos unos no Uno. Convergentes na fusão. E diversos na comunhão.
A Fonte de Energia Originária estará totalmente em nós. E nós totalmente nela.
Eis o verdadeiro panenteísmo*.
Nós não somos Deus, no
sentido simples e direto da palavra. Isso significaria panteísmo*, que não
respeita as diferenças entre criatura e Criador. Nós estamos em Deus. E Deus
está em nós. Eis o panenteísmo que respeita as diferenças. E postula a
interpenetração e mútua presença das diferenças. Somos diferentes para permitir
a mútua relação. Para podermos estar juntos na comunhão.
Não é esse o sentido secreto
do mistério da encarnação vista a partir do cristianismo ? Deus se fez humano
para que o humano se fizesse Deus. O Mestre Eckhart* , na verdade, o maior
místico cristão de todos os tempos, ensinava, ainda no século XIV: "Deves
conhecer a Deus sem imagens e sem semelhanças. Deves conhecê-lo diretamente. Se
eu quiser, no entanto, conhecer a Deus diretamente, devo fazer-me Ele e Ele
deve fazer-se eu ".
A experiência dos místicos
vai no sentido da identificação do ser humano com Deus. Quer dizer: da ação com
a qual ser humano e Deus se identificam. Ficam identificados, uma experiência
de não-dualidade e de mútuo amor.
Um mestre da mística*
muçulmana dizia: "Teu Espírito se misturou com o meu, como o vinho se uniu
com a água. Por este Espírito, quando uma coisa Te toca, me toca a mim também.
Tu és eu em tudo. E basta de separação".
A Suprema Realidade pode ser
comparada a um ilimitado mar-oceano de ser, de vida e de amor. Nós somos apenas
ondas deste mar-oceano. A onda é e não é o mar. É o mar porque sem o mar não há
onda. Não é o mar porque é dele uma manifestação, entre outras. O mar é sempre
maior do que suas ondas e suas manifestações.
A onda é o mar-oceano
manifestado, o mar-oceano que se realiza numa consciência pessoal. Há ondas que
se esquecem de que são o mar-oceano manifestado. Entendem-se a si mesmas,
independentes, sem referência ao mar‑oceano.
Há ondas que sabem que vêm
do mar-oceano. São expressões do mar‑oceano e voltam ao mar-oceano.
Estas são felizes. Vivem a
diferença. E a união na diferença.
Necessitamos, portanto,
oceanizar nossa existência. Vivenciar a Fonte donde tudo jorra e onde tudo
deságua. Caminhar à luz do Sol primordial. Regressar ao seu Seio luminoso.
Eis o termo da jornada
humana: a autotranscendência. O mergulho no insondável Mistério de vida, de
consciência, de comunhão e de amor. Como a águia que mergulhou no azul infinito
do firmamento. Finalmente, a águia e a galinha, a mente e o coração, o Céu e a
Terra, o ser humano e Deus se tornaram uma única Realidade, una, diversa,
complexa e comunional*.
7 – O arquétipo da sínteses entre a águia e a galinha
Em nossa reflexão, a águia
transcende o conceito de ave de rapina. Retrata um arquétipo*. Todo arquétipo é
vivo e não um fóssil do inconsciente humano. Por isso, em cada nova situação
ganha configurações diferentes. Da mesma forma, a galinha representa outro
arquétipo. Assume expressões que se opõem e, ao mesmo tempo, complementam as da
águia. Águia e galinha globalizam a existência humana.
1. A águia e a
galinha como arquétipos
A galinha expressa a
situação humana no seu cotidiano, no círculo da vida privada, nos afazeres
domésticos, nos hábitos e tradições culturais, na dimensão inevitável de
limitações e de sombras que marcam a vida, numa palavra, em sua imanência. A
águia representa a mesma vida humana em sua criatividade, em sua capacidade de
romper barreiras, em seus sonhos, em sua luz, resumindo, em sua transcendência.
Ambas se complementam. Traduzem o dinamismo humano, enraizado por uma parte e
sempre aberto por outra.
Os arquétipos* entram na
construção das sínteses que globalizam a existência. O ser humano precisa unir
enraizamento e abertura, luz e sombra, céu e terra, masculino e feminino. Urge
saciar as duas fomes que o acometem: fome de pão e fome de espiritualidade.
Sente a urgência de celebrar um matrimônio de dimensões pessoais, sociais e
cósmicas. De outro modo acabará sofrendo, fragmentando-se e perdendo seu
centro.
2. Buscando a
síntese: a transparência
Como sintetizar imanência e
transcendência? Como pensar, num só movimento, a águia e a galinha desvelando
situações existenciais? Reportemo-nos ao capítulo 5 quando falamos das
dualidades que dão corpo ao dinamismo da vida e do cosmos.
Para enfatizar uma vez mais
aqueles pensamentos, é esclarecedor nos referirmos ao cristianismo, uma das grandes
tradições espirituais do Ocidente, e à sua dimensão de transparência. Jesus
Cristo, seu fundador, é apresentado como um dos mais significativos arquétipos*
da síntese e da transparência.
Jesus Cristo é aceito pela
fé dos cristãos como sendo simultaneamente homem e Deus. Um homem tão
radicalmente humano que seus discípulos concluíram: humano assim, só mesmo
Deus. Um Deus com tal simpatia para com os seres humanos, com tal capacidade de
identificação com os mais penalizados, pobres e excluídos, com tal misericórdia
para com os filhos pródigos e extraviados que, num excesso de paixão e de amor,
Ele mesmo se fez humano.
Em Cristo encontramos
juntas, sem mistura e sem confusão, a inteira humanidade e a inteira divindade.
As duas realidades – a humana e a divina – estão de tal maneira incluídas uma
na outra, de tal forma abertas e recíprocas uma à outra, que vivem um
esponsório místico*. No dizer forte da Escritura*, são dois numa só carne, qual
duas pessoas que se amam apaixonadamente. A união é ainda maior que esse
esponsório místico.
Jesus, Deus-homem, é
semelhante à natureza da luz. Como já dissemos, toda luz é simultaneamente
partícula material e onda energética. Somente entendemos a luz se assumirmos
conjuntamente a partícula e a onda. Semelhantemente, só entendemos Jesus se o
considerarmos homem e Deus conjuntamente. Fato curioso: Jesus foi apresentado
como luz, a Luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo e não
apenas os batizados e seus seguidores. Ele é um dos arquétipos* centrais do
inconsciente da humanidade, o arquétipo da Imago
Dei (imagem de Deus) e do Filho de Deus.
Jesus é comparado à vida.
Vida é encontro de matéria e de espírito. A matéria nunca é inerte. Sempre é
interativa. O espírito é essa força de interação. Juntos, matéria e espírito,
perfazem a vida, a culminância da evolução, a síntese suprema de todas as
energias e de todas as partículas materiais que se auto‑organizam.
Surpreendentemente Jesus foi anunciado como vida. Vida eterna entre homens e
mulheres, com o projeto de "trazer vida e vida em abundância" para
todos.
A singularidade do
cristianismo consiste em não separar, nem justapor, Deus e o ser humano. Mas
uni-los de tal forma que, ao falar do ser humano, falamos de Deus e, ao falar
de Deus, falamos do ser humano.
Os cristãos dos primórdios
chamavam Jesus de Teântropo. Com esta palavra, que combina Deus e homem (Theos = Deus; anthropos = homem), visavam expressar a unidade singular dessa
realidade divino.;.humana. Em vez de falar de divindade e de humanidade, poderíamos
também falar de coexistência e de interpenetração da imanência (humanidade) com
a transcendência ( divindade). Tal coexistência produz a transparência.
Transparência é o termo que
traduz a inter-retro-relação da imanência com a transcendência. A transparência
é transcendência dentro da imanência e imanência dentro da transcendência. A
transparência faz com que a imanência – no caso, a humanidade de Jesus – se
torne diáfana e translúcida, deixando de ser opaca e pesada. Faz também com que
a transcendência – no caso, a divindade de Jesus – se torne densa e concreta,
deixando de ser etérea e abstrata.
É a transparência, e não a
transcendência, que define a singularidade do cristianismo. Ela traduz
adequadamente a verdade do Teântropo, o mistério da encarnação de Deus na nossa
carne quente e mortal.
Por causa dessa
transparência, o próprio Jesus podia dizer: "quem vê a mim, vê o
Pai". O Pai (transcendente) se fazia transparente nas ações, nas palavras
e no projeto de Jesus (imanente).
No pai-nosso encontramos
também a presença das duas dimensões, transcendência e imanência. Elas não são
paralelas, mas unidas. Reza-se: "Pai nosso que estais no céu"
(transcendência) e "o pão nosso de cada dia dai-nos hoje"
(imanência). Aqui se unem céu e terra, se articulam o impulso para cima (Pai)
com o movimento para baixo (pão) e se juntam louvação ao Pai celestial com o
fruto do trabalho humano. Eis a transparência.
A transparência é uma das
características que melhor definem a pessoa integrada e bem realizada. A
transparência é o efeito e a irradiação do diálogo constante e fecundo entre o
eu consciente e o eu profundo. O eu consciente capta os apelos e solicitações
que jorram deste eu profundo. Escuta sua natureza essencial e realiza uma
síntese entre o que é na realidade profunda e aquilo que sente, pensa, quer e
sonha na realidade empírica. Disso nasce a autenticidade.
Importa não confundir
autenticidade com sinceridade. A sinceridade se situa no nível do eu
consciente: a pessoa sincera diz o que pensa e age conforme sua idéia. Mas não
necessariamente é autêntica. Pode não ouvir seu eu profundo e suas moções. Não
é inteira porque não engloba todo o seu ser consciente e inconsciente. A
sintonia fina entre os dois eus afaria autêntica e transparente. Sempre que esse
processo ditoso ocorre, a pessoa revela densidade e inteireza. Não possui
dobras. É solar e diáfana. É transparente e autêntica. A pessoa autêntica
mostra leveza em seu ser e em tudo o que faz. Seu humor é sem amargura, seu
desejo é sem obsessão, sua palavra é sem segundas intenções. A transparência
constitui uma das características essenciais da divindade. A pessoa
transparente se move na esfera do divino.
3. Dando asas
à águia
Voltemos aos arquétipos*
águia e galinha. Ambos são decisivos para a vida humana. Importa nunca
dissociá-los. É imprescindível que busquemos a confluência das energias
presentes na águia e na galinha para que elas cooperativamente construam o
humano.
Como mostramos, no início
deste livro, o grande desafio atual é criar condições para que emerja o
arquétipo* da águia. Poderes mundiais têm interesse em manter o ser humano na
situação de galinha. Querem apagar de sua consciência a vocação de águia. Por
isso a grande maioria da humanidade é homogeneizada nos gostos, nas idéias, no
consumo, nos valores, conforme um só tipo de cultura (ocidental), de música (rock), de comida (fast food), de língua (inglês), de modo de produção (mercado
capitalista), de desenvolvimento (material).
Recusamo-nos a ser somente
galinhas. Queremos ser também águias que ganham altura e que projetam visões
para além do galinheiro. Acolhemos prazerosamente nossas raízes (galinha) mas
não à custa da copa (águia) que mediante suas folhas entra em contato com o
sol, a chuva, o ar e o inteiro universo. Queremos resgatar nosso ser de águias.
As águias não desprezam aterra, pois nela encontram seu alimento. Mas não são
feitas para andar na terra, senão para voar nos céus, medindo-se com os picos
das montanhas e com os ventos mais fortes.
Hoje, no processo de mundialização
homogeneizadora, importa darmos asas à águia que se esconde em cada um de nós.
Só então encontraremos o equilíbrio. A águia compreenderá a galinha e a galinha
se associará ao vôo da águia.
4. A união dos
opostos
O arquétipo da síntese
comporta a união dos opostos:
–
Não só a águia, mas também a galinha.
–
Não só a galinha, mas também a águia.
–
Não só a águia na galinha, mas também a, galinha na águia.
– Não só assumir a galinha-águia, mas também
saber quando enfatizar a águia na galinha e quando a galinha na águia.
GLOSSÁRIO
Aguicídio: morte violenta que o filhote de águia provoca no que nasceu depois
dele.
Aguiismo: neologismo para significar a centralização na dimensão-águia,
esquecendo a dimensão-galinha.
Alquímico: o que se deriva da alquimia, a química pela qual medievais e
renascentistas procuravam transformar todos os metais em ouro. A fórmula
secreta se chamava pedra filosofal. Em termos psicanalíticos, significa as
transformações profundas pelas quais passa uma pessoa até conquistar a sua
liberdade interior e o desenvolvimento de sua identidade.
Animus/anima: expressão divulgada pelo psicanalista suíço, fundador da psicologia
analítica,
Carlos Gustavo Jung
(1875-1961) para significar a dimensão masculina (animus) e feminina (anima) presentes
em cada pessoa e nos comportamentos humanos.
Antropogênese: a gênese do ser humano. O ser humano está ainda em evolução. Por isso a
antropologia, estudo do ser humano, não tem condições de apresentar um
conhecimento fechado e concluído.
Aristóteles (384-322 aC) : filósofo grego fundador de um sistema completo, que
inspira o pensamento universal até os dias de hoje. Acentua o primado da
realidade sensível sobre as idéias. Vê todos os seres como concretizações
diferentes do Ser, sendo constituídos pela forma (essência universal) que se
particulariza pela matéria.
Arquétipo: padrões de comportamento que existem no inconsciente coletivo, desde a
mais remota ancestralidade. Figuras e símbolos que representam valores
universais, presentes nas várias culturas.
Axé: na
tradição das religiões nagô e do candomblé significa a força espiritual básica
do universo, a vitalidade que atravessa todos os seres e se condensa em
determinadas pessoas e objetos. Vem da divindade suprema Olorum e é comunicada
pelos Orixás. Encher-se de axé é o propósito da atitude verdadeiramente
religiosa.
Bíblia: o conjunto dos 73 livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento.
Também chamada Escrituras ou Escritura Sagrada.
Big-bang [.grande explosão] : representação da origem do universo mediante a
explosão fantástica de um minúsculo ponto inicial, com densíssima concentração
de energia e de calor, ocorrida presumivelmente há 15 bilhões de anos.
Boht; Niels (1885-1962): físico dinamarquês que projetou o modelo do átomo,
semelhante ao sistema solar. Um dos formuladores da física quântica que vê toda
a realidade constituída de feixes (quantum,
quanta em latim) de energia organizados em campos sempre relacionados com
outros em forma de rede. Formulou o princípio da complementaridade, pelo qual
os contrários devem ser vistos e assumidos como expressão da mesma realidade
complexa, para termos um quadro completo da verdade e da realidade.
Buda (560-480
aC): fundador do budismo. Seu nome originário era Sidarta Gautama. Com 29 anos
abandonou a casa paterna para buscar a redenção. Depois de um longo caminho
espiritual e de prolongaqa reflexão sobre o sofrimento, suas causas e sua
superação, chegou à iluminação. Ganhou o título de Buda, que significa o
iluminado. Semelhantemente ao cristianismo, há o Buda histórico (Sidarta), o
Buda da fé (o corpo do Buda que são as doutrinas) e o Buda transcendente (o
budidade, a essência da iluminação que como semente se encontra em todos os
seres, vai se realizando processualmente até chegar ao nirvana, a suprema
realização no Mistério).
Che Guevara (1928-1968) : médico argentino e líder revolucionário que atuou junto
com Fidel Castro na revolução cubana; criou a guerrilha na floresta amazônica
no sul da Bolívia para daí expandir a rebelião pelo resto do Continente. Foi
preso e assassinado covardemente por soldados do exército boliviano; exemplo do
revolucionário idealista, ético e generoso, deixando a famosa frase:
"importa endurecer, sem perder a ternura jamais".
Cocar: penacho que os caciques usam na cabeça, composto de muitas plumas, para
significar sua autoridade.
Comunional: adjetivo de comunhão que é a relação de amor que permite a convivência
e a uniãona diferença.
Concidadania: neologismo que significa a cidadania participativa, vivida pelos
movimentos sociais, pela qual cidadãos se unem a outros cidadãos para lutar por
seus direitos. Cidadania define a posição do cidadão em face do Estado. A
concidadania define o cidadão em face de outro cidadão.
Copérnico, Nicolau (1473-1543): astrônomo fundador do heliocentrismo ( o Sol é o centro do
sistema solar e não a Terra). Foi padre, nasceu na Polônia e viveu na Itália.
Cosmogênese: é a gênese da cosmos. Este não está acabado, mas ainda em processo de
nascimento e de evolução.
Dalai Lama: significa "o oceano do saber". É o cabeça religioso e
político do Tibete, cuja residência é no Mosteiro de Potala em Lasa. O atual
Dalai Lama nasceu em 1935. Depois da invasão do Tibete pela China em 1959, vive
no exílio em Dharmasala na Índia. Percorre o mundo em missão de paz, ganhando o
prêmio do mesmo nome em 1989.
Dante Alighieri (1265-1321): o maior poeta italiano. Escreveu a Divina Comédia, obra poética em cem cânticos, dividida em Inferno,
Purgatório e Paraíso, escrita no dialeto toscano que se transformou depois no
italiano clássico e atual.
Darwin, Charles (1809-82): biólogo inglês que formulou a teoria da evolução das
espécies e a seleção natural pelo triunfo do mais forte.
Dogmatismo: atitude de uma pessoa aferrada a dogmnas, isto é, a verdades
estabelecidas de uma vez por todas e não submetidas à crítica e ao desenvolvimento.
Eckhart, Mestre (1260-1328): místico alemão, da ordem dos dominicanos. Sustentava que
Deus vive no coração das pessoas e lá, como Pai, nos gera como seus filhos e
filhas na força do Espírito Santo.
Ecologia: estudo das relações que todos os seres vivos e inertes mantêm entre si
e com o meio ambiente. É o estudo (logos)
da casa comum (oikos) para que
seja preservada: nosso planeta Terra. Existe a ecologia ambiental, a social, a
mental e a integral ( que engloba todas as outras e as relações com o universo
e com Deus).
Einstein, Albert (1879-1955): formulador da teoria da relatividade e da equivalência
entre matéria e energia com sua famosa fórmula: E = mc2 . Com isso
revolucionou a visão da matéria e do universo.
Entropia: desgaste natural e irreversível da energia de um sistema ou de todo o
universo tendendo a zero = morte térmica (o calor todo se perde).
Escrituras: Ver Bíblia.
Estereótipo: comportamento fixado, inalterável, sempre repetido mesmo diante de
mudanças significativas; clichê.
Etnocentrismo: atitude de fechamento nos valores de sua raça (etnia) e de sua cultura.
Francisco de Assis (1182-1226): santo italiano, fundador da Ordem Franciscana. Desenvolveu
uma piedade cósmica. Via todos os seres como irmãos e irmãs e como tais os
tratava com ternura e suma veneração. Patrono da ecologia.
Fundamentalismo: atitude fanática de pessoas que se aferram ao fundamento de suas
convicções com desprezo por outros fundamentos e por outras convicções.
Galileu Galilei (1564-1642): matemático e filósofo, um dos fundadores da ciência
moderna. Defendeu cientificamente o heliocentrismo (confira Copérnico). Foi
processado e condenado pela Inquisição em 1633 por afirmar que a Terra gira ao
redor do Sol. Atribui-se ele a frase: "e pur si muove..." ("e
apesar da condenação se move" a Terra ao redor do Sol e não o contrário,
como queriam os Inquisidores).
Galinismo: neologismo para definir a atitude de quem se reduz apenas à sua
dimensão-galinha, esquecendo a águia que traz dentro de si.
Gandhi, Mahatma (1869-1948): líder da independência da Índia. Acreditava na força
intrínseca da verdade para a mobilização política, na não-violência ativa e na
religião como mística para elevar a vida humana e aliviar os conflitos sociais.
Desde 1915 foi chamado pelos indianos de Mahatma,
a Grande Alma, em sânscrito.
Gênesis: primeiro livro da Bíblia e do Pentateuco ( cinco livros: Gênesis,
Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) em que se narra a criação do mundo, a
história da humanidade até o dilúvio e a história dos patriarcas do povo
hebreu, Abraão, Isaac e Jacó. Foi escrito por volta do ano 1000 aC.
Hagadá: Livro em forma de antologia, que apresenta, em forma simples, a origem
do judaísmo (ver Midraxe).
Halacá: Termo hebreu que significa curso, lei judaica. Geralmente usado em
oposição a Hagadá (ver Midraxe).
Hebreu: povo semita do Médio Oriente, do qual se originaram os judeus de hoje.
É o povo bíblico das Escrituras judaicas e cristãs.
Heisenberg, Werner (1901-76): físico alemão, um dos formuladores da nova física e do
princípio de indeterminação. Por esse princípio afirma-se que tudo provém de
infinitas probabilidades, algumas realizadas e outras abertas à realização. Não
existe determinação absoluta na natureza e nas suas leis. Mostrou também que o
sujeito que se relaciona com a realidade sempre a afeta, modificando-a e
tornando assim impossível uma separação estrita entre sujeito do conhecimento e
objeto conhecido.
Heráclito (550-480 aC): filósofo grego de Éfeso, na Ásia Menor. Sua intuição
filosófica fundamental foi a mudança constante da realidade, sem contudo perder
sua essência, à semelhança do rio, cujas águas sempre mudam mas que mantém sua
identidade de rio.
I Ching: O livro das mutações. Livro
de oráculos, surgido entre 1150-249 aC na China.
lndividuação: ver Processo de individuação.
João da Cruz (1542-91): santo espanhol e ardente místico do amor até a identificação
com Deus. Suas principais obras são o Cântico Espiritual e a Subida ao Monte
Carmelo.
King, Martin Luther (1929-1968), líder negro norte-americano, pastor
protestante, criador do movimento da resistência não violenta pelos direitos
dos negros. Grande orador e mobilizador de massas, chegando a levar mais de um
milhão de pessoas na famosa Marcha sobre Washington. Foi assassinado em 1968.
Madre Teresa de Calcutá: religiosa iugoslava que vive na Índia e se dedica a
recolher moribundos das ruas para que morram dignamente no convício humano. É
prêmio Nobel da Paz.
Mãe Menininha do Gantois: famosa líder religiosa do Candomblé baiano que
entretinha diálogos freqüentes com intelectuais e outros religiosos com grande
abertura ecumênica.
Maomé (570-632)
: fundador do islamismo. De origem humilde, foi comerciante até os 40 anos.
Teve então uma revelação divina conservada no livro do Corão. Sentiu-se profeta
enviado para anunciar ao mundo o Deus único, Alá, a submissão abnegada e a
fraternidade entre os homens. O islamismo é, depois do cristianismo, a religião
mais numerosa de todas e a que mais cresce.
Martinho de Tours (316-97) : mártir e apóstolo, das Gálias, patrono dos reis merovíngios
franceses.
Menchú, Rigoberta, líder indígena da GuatemaIa, prêmio Nobel da Paz por sua luta não
violenta .pela defesa das culturas indígenas mundiais, especialmente
latino-americanas.
Mendes, Chico, líder dos povos da floresta, no Acre, ecologista defensor do
extrativismo como forma de preservação das riquezas da Amazônia e assassinado
em 1988.
Merton, Thomas (1915-68): monge norte-americano trapista, conhecido por sua mística em
diálogo com o mundo moderno e com as tradições orientais. Suas obras mais
conhecidas são: A montanha dos sete
patamares e Contemplação num mundo em
ação, pela Editora Vozes de Petrópolis.
Messiânico: adjetivo de Messias, pessoa enviada por Deus para redimir a humanidade
e resgatar a criação. Sua missão é sempre coletiva. Messiânica, diz-se de uma
pessoa, que possui as características de sede de justiça, de solidariedade para
com os oprimidos, de grande bondade e de amor incondicional, irradiando por
isso grande força de convencimento.
Metáfora: recurso Iingüístico pelo qual se usa uma palavra em sentido figurado
para expressar uma realidade que mostra semelhança ou conaturalidade com a
significação natural desta palavra. Assim! por exemplo, a águia pode ser
metáfora da vontade de voar e de transcender do ser humano; galinha, da
situação cotidiana de quem se ocupa das coisas do dia-a-dia.
Midraxe: midrash em hebraico significa interpretar e aprofundar. Midraxe-halacá, quando
se trata de leis, e Midraxe-hagadá, quando de histórias.
Mística: é adjetivo da palavra mistério em grego. Diz-se que alguém é místico
quando tem uma experiência pessoal da Realidade Suprema. O místico não ensina
doutrinas mas testemunha um encontro com o Divino e constrói um caminho
experiencial rumo ao Mistério último do universo.
Moisés: viveu cerca de 1225 aC, considerado o fundador da religião que cultua
Javé como o Deus da aliança com o povo de Israel. Criado por uma filha do faraó
do Egito, sentiu o chamado de Javé na sarça ardente para libertar o povo judeu
da escravidão. Depois de uma perigosa fuga do Egito, conduziu o povo pelo
deserto durante quarenta anos. No monte Sinai recebeu a tábua dos dez
mandamentos. É considerado o grande legislador da religião judaica e o pai das
tradições bíblicas.
Moralismo: atitude de quem só se rege por princípios morais estritos, sem diálogo
com as outras pessoas e sem considerar as transformações da realidade.
Naturalista: estudioso e especialista da história natural, de plantas, aves e
animais.
Newton, Isaac (1643-1727): físico e matemático inglês. Descobriu alei da gravidade.
Elaborou uma visão mecânica do universo, regido por leis imutáveis. Sua
influência se estende até os dias de hoje.
Numinoso: vem do latim numen que
significa divindade. É sinônimo de sagrado, de fogo interior. Estado de
consciência de quem teve uma experiência de encontro e de união com a Suprema
Realidade.
Panenteísmo: doutrina religiosa; afirma que Deus está em tudo e tudo está em Deus.
Guardam-se as diferenças entre Deus e as criaturas, mas se acentua sua mútua
presença. Não deve ser identificado com panteísmo.
Panteísmo: doutrina segundo a qual não há outra realidade senão Deus. Tudo é Deus,
as pedras, os animais, o ser humano e o universo, sem distinção. Não deve ser
confundido com panenteísmo.
Paradigma/paradigmático: modelo, padrão, solução exemplar. Um caso é
considerado paradigmático quando serve de referência e de exemplo para
situações semelhantes ou conaturais.
Paradoxo: afirmação que se opõe ao sistema comum de entendimento e que, contudo,
é verdadeira. Os opostos se encontram dentro de uma realidade maior que os
envolve e os transcende.
Personalização: dar caráter pessoal a ou chegar a ser pessoa.
Pessoa, Fernando (1888-1935): poeta português. Usou vários heterônimos (outros nomes) ,
Alberto Caieiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, para expressar os diferentes
gêneros literários, classicismo, simbolismo e futurismo.
Platão ( 427 -347 aC) : filósofo grego, fundador do platonismo, tendência que
dá primazia às idéias e aos ideais sobre a realidade concreta. Seu sistema
influencia o pensamento mundial até os dias de hoje.
Pragmatismo: atitude de quem se orienta apenas pela prática e pelos efeitos
intencionados, sem dar maior consideração aos princípios éticos.
Prigogine, Ilya: nasceu em 1917 em Moscou e vive em Bruxelas e em Austin (EUA).
Físico-químico, ganhou o prêmio Nobel em 1977 por sua pesquisa sobre os
processos biológicos que se organizam a partir do caos e do desequilíbrio,
formando ordens mais altas e ordenadas. É um dos formuladores da teoria do caos
generativo.
Processo de individuação: expressão criada pelo psicanalista Carl Gustav Jung
para designar o esforço humano de integração de todas as energias psíquicas,
conscientes e inconscientes, pela criação de um Centro vital, chamado Self (Si‑mesmo), onde se encontra a
imagem de Deus e a presença de Deus mesmo na profundidade humana.
Rabino: sacerdote do culto judaico e doutor das leis do judaísmo.
Rajael (1483-1520): pintor renascentista italiano, chefe de construção da
Basílica de S. Pedro do Vaticano. Famosos são seus quadros Madonna Colonna e a Escola de
Atenas.
Realismo histórico: atitude de quem, na política, considera apenas a
correlação de forças vigentes e se alinha com os poderes dominantes, sem uma
perspectiva de longo prazo, orientada pelos interesses maiores da nação.
Retórica: argumentação, arrazoado nem sempre convincente.
Robinson Crusoé: herói do romance de aventura de Daniel Defoe, A vida e as estranhas aventuras de Robinson Crusoé (1719) .Robinson
vivia sozinho numa ilha na desembocadura do rio Orinoco. Tornou-se símbolo de
uma vida solitária e sem contato com a civilização.
Romero, Oscar Arnulfo (1917-1977), arcebispo de San Salvador da República
El Salvador, assassinado quando celebrava a missa. Defensor dos pobres, da
teologia da libertação e severo crítico dos regimes militares ditatoriais da
América Central.
Rumi, ]alal ud-Din (1207-73): poeta e místico muçulmano, nascido no Tajiquistão,
considerado o maior místico do amor humano e divino.
Saga: história
ou narrativa rica de incidentes que significam desafios a serem superados. Cada
pessoa humana elabora sua saga pessoal.
Sinergia: cooperação, convergência de energias, colaboração entre as pessoas que
colocam em comum suas qualidades para a consecução de um bem comum.
Stein, Edith ( 1891-1942) .Filósofa judia, convertida ao cristianismo e religiosa
carmelita, presa pelos nazistas e enviada à câmara de gás em Auschwitz.
Sustentabilidade: termo tirado da biologia e assumido pela ecologia. É a satisfação das
necessidades básicas de uma sociedade, sem comprometer o capital natural e as
gerações futuras que têm também o direito de satisfazer suas necessidades e de
herdar um planeta com seus ecossistemas preservados e enriquecidos.
Talmud: em hebraico significa Doutrina. É o conjunto dos escritos que recolhem
tradições orais e comentários dos escritos bíblicos do Antigo Testamento. Esses
terminaram de ser codificados por volta de 500 aC. Por mil anos se fizeram
estudos e comentários, recolhidos pelo Talmud.
Ele acabou de ser elaborado por volta de 500 dC. Existe o Talmud babilônico, com cerca de 10 mil
páginas, e o palestinense, que é sua condensação mais breve.
Tarô: baralho
de cartas, existente desde o século XIV na França e na Itália, pelo qual se
procura conhecer a vida, as tendências e as possibilidades das pessoas.
Teresa d'Ávila (1515-82): santa e mística espanhola, companheira de S. João da Cruz,
que deixou uma grandiosa obra espiritual e poética. Seus principais escritos
são: Livro da vida, Castelo interior ou
Moradas.
T1erritorializar: circunscrever a ação humana dentro de um determinado espaço cultural e
de um determinado tempo histórico. O ser humano vive sempre territorializado e,
ao mesmo tempo, rompe todas as territorializações dadas.
Utopia: nome de um romance de Thomas Morus (1516). Utopia, literalmente,
significa: "de nenhum lugar". Utopia é a descrição de um estado ideal
da condição humana, pessoal e social, que não existe em nenhum lugar mas que
serve para relativizar qualquer tipo de sociedade, criticá-la e também
impulsioná-la para que se modifique e se oriente na direção do ideal
apresentado. A utopia representa a realização plena de virtualidades presentes
dentro da vida. Neste sentido, o utópico pertence ao real, na sua dimensão
possível e virtual.
Weil, Simone (1909-43): filósofa francesa de origem judia, que se fez cristã sem
abandonar o judaísmo. Seus escritos estão pervadidos da mística do trabalho e
da compaixão pelo sofrimento da classe operária oprimida. Suas principais obras
são: O peso e a graça e À espera de Deus.
Leonardo Boff foi sempre professor de teologia, de filosofia, de espiritualidade e de
ecologia. Trabalhou mais de vinte anos em Petrópolis, com um pé na academia e
outro nos meios pobres. Dessa combinação nasceu a teologia da libertação que
ele, junto com outros, ajudou a formular. Sempre se deixou iluminar por S.
Francisco e Santa Clara, os paradigmas de uma nova humanidade tema e fraterna.
Assessora comunidades de base, dá cursos em universidades brasileiras e
estrangeiras e escreve com assiduidade. Dos seus mais de sessenta livros
destacam-se pela Editora Vozes, onde coordenou o editorial religioso por muitos
anos: Jesus Cristo Libertador; Como fazer
teologia da libertação; O rosto materno de Deus; Os sacramentos da vida e a
vida dos sacramentos; A Santíssima Trindade é a melhor comunidade; Despertar da
águia; Saber cuidar. Publicou também pela Ática de São Paulo: Nova era; a civilização planetária;
Ecologia: grito da urra, grito dos pobres. Pela Record: Brasa sob cinzas, estórias do
anti-cotidiano. É professor emérito da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro.
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